Morador de rua passa dia em biblioteca lendo para matar dor do tempo

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Thailla Torres – campograndenews.com.br – 01/08/2016

Antes do sol aparecer, Carlos Augusto Durval dos Santos, de 56 anos, já está pronto para mais um dia na rua. Dobra o papelão junto com o cobertor que usa para dormir e esconde em um cantinho da cidade. Em busca de alguns trocados, pede dinheiro na rua, toma um café e segue para as escadas que dão acesso à Biblioteca Pública Estadual, na Avenida Fernando Corrêa da Costa.
O lugar parece improvável para quem não tem mais uma casa ou referência familiar, mas assim como Carlos, outros moradores de rua encontraram nos livros a fuga da solidão, do abandono e de outras válvulas de escape, como as drogas. Se para muito hoje em dia a biblioteca é algo obsoleto, para eles é o melhor jeito de ver o tempo passar.

Há 3 anos, Carlos descobriu nos livros um mundo diferente das recaídas que há tempos ele não dava conta de superar. “Tinha problema com a bebida sabe… Na rua, a gente começa andar com outras pessoas e acaba se afundando. Mas eu nunca usei droga, só a bebida mesmo, cai nessa perdição”, lamenta.

Mas logo ele abre um sorriso e faz questão de mostrar os cadernos que compra com os trocados da rua. Entre as linhas, estão as anotações de alguns livros e frases que surgem na cabeça durante a noite. Os blocos de anotações são feitos com volantes que ele pega na lotérica. Servem para guardar os trechos das leituras.

“Não gosto muito de ficção, prefiro os livros espiritas, deixo 4 aqui na minha mesa. Mas já li a biografia da Elis Regina e da cantora Maísa”, conta mostrando o amontado de livros na mesa que ele faz questão de sentar todos os dias na biblioteca.

Além das obras de Allan Kardec e as biografias, o dicionário é livro indispensável. O clássico Aurélio é como um acessório para Carlos. “Eu uso ele todo dia, tem algumas palavras nos livros que eu não entendo, aí eu devoro o dicionário. Aí, se tem alguma palavra que eu acho interessante, eu anoto aqui no caderno”, explica.

Ele passa cerca de 8 horas dentro da biblioteca todos os dias. Só para na hora do almoço. A comida ele ganha de uma marmitaria próxima, as vezes até o funcionário do prédio divide o alimento com ele. “Café da manhã para mim não pode faltar, eu sempre faço uns R$ 9 cuidando carro, de manhã eu tenho que comer 2 pães com mortadela”, comenta.

Sem mencionar o motivo, ele conta apenas que saiu de casa em 1990, depois de chegar do Rio de Janeiro. Em Mato Grosso do Sul, chegou a trabalhar em fazendas, mas depois de perder o emprego, foi a bebida que o consumiu totalmente.

“Hoje frequento o AA (Alcoólicos Anônimos) e fico na biblioteca, tenho a cabeça no lugar, carrego aqui essa vivências e tô muito melhor. Tenho educação, não tenho passagem pela polícia e por isso eu fico aqui, tô nem aí…”, reflete se referindo as pessoas que as pessoas ficam incomodadas com a presença deles por ali.

Até para quem admite não gostar de ler, o lugar é como um refúgio. Receoso com a proximidade, o morador de rua Thiago Ferreira Guimarães, de 36 anos, larga o mouse do computador e pede para não ser fotografado assim que percebe a nossa equipe. Após alguns minutos de conversa, finalmente ele topa dar entrevista.

Thiago é outro que pouco fala de onde veio. Não gosta de ser chamado de morador de rua, mas afirma que dorme pelas calçadas todos os dias. Longe de casa, não se reconhece mais em família. “Eu nunca tive família, sei que tive uma mulher velha que se diz minha tutora, mas eu sai de lá faz tempo e fiquei desempregado”, conta.

Na biblioteca, os livros não chamam atenção. Ele aproveita o dia para entrar na internet, assistir disputa de games pelo Youtube, ler o jornal e passar o tempo. Entre uma informação e outra, se confunde com a própria história. Cita os problemas na política e divaga sobre o que família viveu no tempo da guerra fria.

Por fim, admite que ali é onde encontra o apoio que ele não vê nas ruas há muito tempo. “Eu venho pra ficar sem dor, a dor do tempo sabe? É pra aliviar o tempo, eu tinha outro ritmo, usava drogas e hoje não uso nem bebida, é um jeito de não ficar vagando pela rua, sozinho…”, justifica.

Rejeição – Desde que eles começaram a frequentar a biblioteca, a permanência dos moradores de rua se tornou uma batalha diante da rejeição de outros frequentadores. Quem resiste firme é a bibiotecária Eleuzina Crisanto de Lima, de 41 anos. “As pessoas se incomodaram com a presença deles, pelo fato de não tomarem banho. Mas eu pensei que isso não podia ser motivo para impedir eles de estarem aqui e muito menos das pessoas se sentirem incomodadas”, conta.

Por isso a servidora arregaçou as mangas em busca de apoio para quem vivia na rua. “Pensei comigo: eu não posso perder os meninos, aí eu conversei com eles, expliquei que bastava tomar um banho e entrar limpinho que o problema seria resolvido. Conseguimos parceria com um centro de triagem que oferece assistência social, eles tomam banho, as vezes trocam de roupa quando ela já está bem suja, procuramos fazer documentos para alguns. Tudo para não perder eles, porque isso daqui é pra todo mundo”, justifica.

Eleuzina acredita no efeito positivo que os livros e o ambiente proporcionam. “Eles vivem em uma situação tão difícil e posso ver que isso aqui é um suporte de apoio. Por isso, enquanto a gente estiver aqui, vamos bater o pé para que eles continuem frequentando. Porque é uma biblioteca pública e ela deve ser para todos”, reforça.

Em Campo Grande há duas bibliotecas públicas que são abertas à população, também com empréstimo de livros. A Biblioteca Pública Estadual Dr. Isaías Paim fica na Avenida Fernando Correa da Costa, 559, Centro. A Biblioteca Pública Municipal Anna Luiza Prado Bastos fica no Horto Florestal. As duas funcionam de segunda à sexta, das 7h às 17h.