Mulheres promovem iniciativas para lutar contra a gordofobia

Publicado em 16/08/15 06:00 Atualizado em 28/08/15 22:39

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Simone Daher e amigas tiraram fotos durante um encontro no início de agosto na Praia da Barra da TijucaSimone Daher e amigas tiraram fotos durante um encontro no início de agosto na Praia da Barra da Tijuca Foto: Gleyson PeixotoJúlia Zaremba

Questionar padrões de beleza, lutar contra a gordofobia e valorizar o corpo feminino, independentemente do tamanho ou forma. Esse é objetivo de Juliana Romano, Mariana Godoy, Paola Altheia e Simone Daher. As quatro mulheres, cada uma à sua forma, lançaram iniciativas nas redes sociais para discutir essas questões e estimular o empoderamento das mulheres. E têm conquistado, a cada dia, uma legião de novas seguidoras que se sentem, finalmente, representadas.
Fotógrafa faz ensaio com mulheres acima do peso para questionar padrões

Um ensaio fotográfico gerou bastante repercussão – e polêmica – na internet nas últimas semanas. Nas imagens, mulheres consideradas acima do peso aparecem em poses sensuais, em diferentes ângulos, com frases escritas no corpo, como “tire a sua gordofobia do meu caminho que eu quero passar” e “meu corpo, minhas regras”. O ensaio, intitulado “Empoderarte-me”, foi feito pela fotógrafa Mariana Godoy, de 22 anos, que vive na cidade de Jundiaí, em São Paulo.

– Começou como uma brincadeira entre amigas. A sessão foi muito divertida, uma coisa nova para todas. Apesar disso, ficaram muito à vontade, pois lidam muito bem com seus corpos. Quando publiquei a primeira foto do ensaio no Facebook, a reação foi muito positiva. Muitas mulheres me disseram que se sentiram representadas. Afinal, é difícil ver ensaios com mulheres gordas. Consegui alcançar o meu objetivo com o ensaio, que é fazer com que a mulher se aceite e se sinta bonita, independentemente do peso – afirma, destacando que as fotos foram tiradas em abril, maio e julho.

Mariana conta que ensaio começou como brincadeira entre amigasMariana conta que ensaio começou como brincadeira entre amigas Foto: Mariana Godoy

Apesar das críticas, a fotógrafa conta que ensaio foi muito elogiadoApesar das críticas, a fotógrafa conta que ensaio foi muito elogiado Foto: Mariana Godoy

Segundo Mariana, objetivo do ensaio era fazer com que a mulher se aceite e se sinta bonita, independentemente do pesoSegundo Mariana, objetivo do ensaio era fazer com que a mulher se aceite e se sinta bonita, independentemente do peso Foto: Mariana Godoy
Apesar disso, a fotógrafa conta que também foram publicados comentários maldosos em relação ao ensaio, mas diz que não dá atenção para eles. Para ela, existe muito preconceito contra pessoas gordas no Brasil, que se manifesta em todos os lugares – desde uma entrevista de emprego até na hora de comprar uma roupa.
– As pessoas acham que têm o direito de ofender as meninas e de afirmar que nenhuma delas é saudável. Um internauta chegou a comentar que ficou com “nojo” do ensaio. Não posso olhar para uma pessoa gorda e dizer que não é saudável, assim como não dá para afirmar que uma pessoa magra está com boa saúde – afirma.

Mariana acredita que existe um grande preconceito contra gordas no BrasilMariana acredita que existe um grande preconceito contra gordas no Brasil Foto: Mariana Godoy

Fotos serão expostas em feira gastronômica de Jundiaí em agostoFotos serão expostas em feira gastronômica de Jundiaí em agosto Foto: Mariana Godoy
Mariana busca agora novas modelos para os próximos ensaios. Agora, quer fotografar mulheres negras e mais velhas, todas acima do peso. No dia 29 de agosto, o “Empoderarte-me” será exposto em uma feira gastronômica em Jundiaí.
– As mulheres brasileiras precisam se amar mais. Precisam acreditar que são bonitas para se sentirem empoderadas – diz.

Nutricionista questiona padrões de beleza em blog

O blog da nutricionista Paola Altheia, de 28 anos, não fala sobre dietas da moda ou receitas que farão a mulher emagrecer em poucos dias. Em vez disso, o “Não sou exposição” discute padrões de beleza, representação midiática, autoestima e saúde. E alerta sobre os danos causados por esses padrões, pelo culto ao corpo, pela gordofobia e pelo machismo.

A nutricionista Paola Altheia defende o combate a estereótipos e preconceitos relacionados ao corpoA nutricionista Paola Altheia defende o combate a estereótipos e preconceitos relacionados ao corpo Foto: Arquivo pessoal
– Acho importante questionar padrões de beleza irrealistas. Somos diariamente bombardeados com imagens ilusórias e digitalmente retocadas que levam o nosso cérebro a crer que tudo o que está sendo visto é verídico. Mais do que celebrar outras formas de beleza além da imagem da mulher alta, magra, longilínea e caucasiana, acho importante dizer às mulheres que nosso valor vai além da aparência – defende.
O “Não sou exposição”, criado em 2012, também tem uma página no Facebook, que é acompanhada por mais de 20 mil internautas. O nome, segundo Paola, foi escolhido a partir da ideia de que o corpo da mulher “não é um item exposto em uma galeria”.

Mesmo sendo magra, Paola alerta para o preconceito contra pessoas gordas em seu blogMesmo sendo magra, Paola alerta para o preconceito contra pessoas gordas em seu blog Foto: Arquivo pessoal
– Eu escolhi o título porque sou mulher e sinto um constante escrutínio sobre o meu corpo e inúmeros discursos me dizendo o que devo comer, o que devo vestir, como devo me comportar, o que devo desejar. E eu não quero receitas sobre como ser mulher. Eu sou uma pessoa com diferentes talentos e potencialidades, meu corpo não existe para ser olhado pelos outros, não sou domínio público – afirma, destacando que também criou um projeto homônimo que leva a escolas, faculdades e universidades para discutir as questões abordadas no blog.

Segundo Paola, blog já teve mais de um milhão de acessosSegundo Paola, blog já teve mais de um milhão de acessos Foto: Reprodução / Não sou exposição
Para a nutricionista, existe uma ideia equivocada no imaginário popular de que todos os gordos são doentes e, todos os magros, saudáveis, o que estimula a gordofobia. Além disso, Paola acredita que muitas pessoas disfarçam o desprezo por gordos com “preocupação com a saúde”, mas que, na verdade, criticam porque os “gordos incomodam”.

– Nossa sociedade é lipofóbica. Temos pavor de gordura no nosso corpo, no corpo do outro e nos alimentos. A gordofobia é consequência do culto ao corpo combinado com visões reducionistas de saúde que problematizam o corpo gordo sem considerar o contexto em que ele está inserido. O corpo gordo incomoda porque a sociedade relaciona características morais negativas, como indisciplina, preguiça e falta de obstinação, com gordura corporal. A falta de informação colabora para isso – afirma.

Paola também destaca que a pessoa precisa se amar para se cuidar. Para ela, pessoas que ouvem
constantemente mensagens negativas sobre seu corpo dificilmente vão aderir a um estilo de vida mais saudável.

– Não há como estimular o ódio e o rechaço ao corpo gordo e em seguida pedir para que a pessoa seja ativa, coma bem, se movimente. Não acredito em estímulo negativo. Não há mal nenhum em gostar do nosso corpo, seja ele magro, gordo, saudável ou doente. Porque o amor próprio promove mudanças positivas, jamais negativas. Simplesmente não faz sentido acreditar que estimular o amor pelo corpo fará com que as pessoas se acomodem. Quem ama, cuida – defende.

Jornalista fala sobre moda e beleza plus size em blog
A jornalista Juliana Romano, de 26 anos, criou o blog “Entre topetes e vinis” em 2009. A blogueira conta que começou a página publicando fotos de seus “looks”e falando os truques para adaptar roupas ao seu corpo. Segundo ela, com o crescimento do mercado de roupas plus size, seu guarda-roupas foi ampliado com peças do seu tamanho e começou a dar mais dicas de moda às leitoras.

Além disso, a jornalista costuma publicar textos que falam sobre preconceito, auto estima e que abordam o papel da mulher gorda na sociedade.

– Eu acredito que, ao compartilhar uma nova visão da mulher plus size, a visão da mulher para cima, com auto estima fortalecida, bem resolvida e feliz, as pessoas passam a se questionar sobre suas inseguranças. Mostro que a mulher pode ser o que ela quiser e como ela quiser. Eu também trago uma série de questionamentos e levo a mulher a refazer seu raciocínio quebrando a lógica dos padrões. Eu mostro que as mulheres têm opções, e que cabe somente a elas decidir o que fazer – explica.

Juliana criou oJuliana criou o “Entre tapas e vinis” em 2009 Foto: Reprodução / Facebook
Para Juliana, a quantidade de iniciativas contra a gordofobia e em prol da aceitação plus size aumentou nos últimos anos.
– Finalmente as mulheres estão empoderadas. Elas têm voz, têm trabalho e dinheiro, cada vez mais têm posição, são autossuficientes e não precisam mais se submeter à opinião dos outros. Ou seja, é claro que esse momento traz para a mulher a voz para dizer o que ela quer ou não do seu próprio corpo. E se ela quiser ser gorda, ninguém tem nada a ver com isso – defende.

A página tem quase 90 mil curtidas no FacebookA página tem quase 90 mil curtidas no Facebook Foto: Reprodução / Facebook

Jornalista posta fotos de looks plus size em blogJornalista posta fotos de looks plus size em blog Foto: Reprodução / Facebook
A jornalista acredita que o grande problema dos gordofóbicos é considerar qualquer pessoas que esteja acima do peso doente, sem levar em conta os diferentes graus de obesidade existentes.

– As pessoas não se informam direito e saem reproduzindo um monte de besteiras por aí. Existem mil fatores que definem ou não a saúde de uma pessoa. Eu acho legal estimular atividades físicas e alimentação saudável, mas dá para comer direito e fazer exercício sem ser magra. Não é porque você cuida da sua saúde que você precisa automaticamente querer ser magra e ter quadradinhos – defende.

Juliana diz que está muito satisfeita com seu corpoJuliana diz que está muito satisfeita com seu corpo Foto: Reprodução / Facebook

A jornalista diz que se alimenta de forma saudável e pratica exercícios físicosA jornalista diz que se alimenta de forma saudável e pratica exercícios físicos Foto: Reprodução / Facebook
Juliana assume que está acima do peso considerado ideal, mas, segundo ela, isso não afeta a sua saúde, seus relacionamentos, sua vitalidade ou felicidade. A jornalista conta que já foi magra, mas que está muito mais satisfeita com seu corpo atualmente.
– Eu já fui magra e era completamente neurótica e infeliz porque não é natural do meu corpo ser magro, então eu realmente tinha que me esforçar muito. Ou seja, eu sou uma pessoa muito mais feliz gorda. Eu passeio bastante, faço exercícios diários, me alimento super bem, passo o dia pensando em ideias para inspirar as mulheres e não mais contando calorias. Eu sou muito mais saudável fisicamente e mentalmente do que quando eu passava cada segundo da minha vida pensando que eu precisava emagrecer – defende.
Modelo plus size defende que manter o corpo em movimento é fundamental
Gordinha de biquíni. Pode? Para a técnica de radiologia e modelo plus size Simone Daher, de 37 anos, a resposta é mais do que positiva. Em janeiro deste ano, a modelo e um grupo de amigas acima do peso fizeram um protesto na Praia da Urca, no Rio de Janeiro, contra a gordofobia. Naquele dia, todas colocaram biquínis e fizeram uma sessão de fotos no local. Quando voltou para casa, Simone teve a ideia de criar uma página no Facebook para levantar a auto estima de mulheres fora dos padrões, intitulada “Pq gordinha de biquíni podeee”.
– O intuito é mostrar para a sociedade que somos seres humanos, independentemente do nosso peso. Queremos respeito. Não fazemos apologia à gordura, que, em excesso, faz mal. As mulheres têm, sim, que movimentar o corpo e cuidar da saúde. O que queremos é levar auto estima para elas, mostrar que podem ser bonitas mesmo acima dos padrões ideais de beleza – afirma.

Simone e amigas plus size posam para fotoSimone e amigas plus size posam para foto Foto: Arquivo Pessoal

Simone defende que mulheres tem que movimentar o corpoSimone defende que mulheres tem que movimentar o corpo Foto: Arquivo Pessoal
Simone conta que costuma promover encontros entre as seguidoras da página – que tem mais de 9 mil curtidas – onde são realizadas brincadeiras e palestras com modelos plus size, que dão dicas para quem quiser seguir na carreira. Segundo ela, o evento é realizado uma vez por mês, com uma média de 20 participantes cada.
A técnica de radiologia entrou para o mundo das passarelas em novembro de 2014, quando participou de um concurso de beleza voltado para mulheres plus size. Apesar de não ter vencido, Simone, que tem 1,64 metro e pesa 95 quilos, conta que foi uma experiência “maravilhosa”. No início de agosto, também participou do “Diva Brasil Plus Size”.

Simone acredita que existe uma discriminação em relação a mulheres acima do peso no paísSimone acredita que existe uma discriminação em relação a mulheres acima do peso no país

Para Simone, existe uma discriminação muito grande em relação a mulheres acima do peso no Brasil. Hoje, diz que é muito bem resolvida com o corpo, e que os problemas de auto estima foram superados.
– Me olho no espelho e me acho linda. Quando começamos a nos amar e demonstramos isso para os outros, já te olham com outros olhos. Acho que o preconceito contra pessoas acima do peso pode diminuir através da educação – defende.

Simone participou de concurso de beleza plus size no início de agostoSimone participou de concurso de beleza plus size no início de agosto Foto: Arquivo Pessoal

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Recado para a atriz #Bettyfaria: moça, nojento é o teu preconceito. Velhice e obesidade são circunstâncias da vida e cada um carrega em si a sua própria marca. Tenho certeza que a senhora tem muitas!!