Fatos e fotos II – O que aconteceu com os ilustres desconhecidos que protagonizaram as mais famosas fotografias mundiais?

Fatos e fotos II – O que aconteceu com os ilustres desconhecidos que protagonizaram as mais famosas fotografias mundiais?

by Clariana Touza – by Literatortura

 

Continuando a saga de fotografias famosas e matando a curiosidade do público que viu tais imagens inúmeras vezes e pouco (ou quase) nada sobre a verdade por detrás delas. Segundo Robert Martínez, do jornal mexicano “El Universal”, “a função de qualquer pôster é comunicar uma mensagem, seja por meio de gráficos, textos, fotografia ou pela combinação dos três”, e em alguns casos acabam virando verdadeiros ícones. Conheça mais algumas verdades de fotografias e pôsteres históricos, dessa vez com a presença de famosos:

1- Che Guevara – “Guerrilheiro heroico”

foto original de Che, por Alberto Korda

A fotografia, mais tarde chamada de “Guerrilheiro heroico”, foi feita em Havana, Cuba, em 1960, por Alberto Korda, durante uma cerimônia fúnebre na qual Fidel Castro falava e homenageava as vítimas da explosão de La Coubre. Ernesto Guevara foi fotografado em um momento de compenetração e reflexão.

Adaptação feita por Jim Fitzpatrick

Em 1967, enquanto Che lutava contra o exército boliviano e tentava levar adiante os ideais da revolução cubana, o editor italiano Gianfranco Feltrinelli contatou Korda em busca de retratos, que o forneceu duas cópias da fotografia, as quais foram espalhadas em cartazes quando as autoridades bolivianas anunciaram em público a morte do guerrilheiro. Uma adaptação da imagem foi feita em 1968 pelo artista irlandês Jim Fitzpatrick e o trabalho é tido como uma das dez melhores imagens icônicas de todos os tempos. Korda nunca se preocupou com os direitos de suas fotos por ser comunista, e apenas em 2000, quando o “Guerrilheiro heroico” foi estampado em uma campanha de bebidas alcoólicas, o fotógrafo cubano entrou na justiça e saiu vitorioso, afirmando que “usar a imagem de Che Guevara para vender vodka é manchar seu nome e sua memória. Ele nunca bebeu, ele não era um bêbado. Como um defensor dos ideais pelos quais Che morreu, eu não sou avesso a sua reprodução por aqueles que desejam propagar sua memória e a causa da justiça social em todo o mundo.”.

2-“We can do it!”

Muitas vezes referido como “Rosie, the Riveter”, o cartaz foi feito pelo artista americano J. Howard Miller, como parte da propaganda norte-americana durante a II Guerra Mundial. No período de guerra, a maioria dos homens se alistou ao exército e as mulheres foram convidadas a assumir serviços que antes eram inteiramente feitos por eles, já que a produção não podia parar. O cartaz representa esse convite em nome da pátria, já que notamos uma mulher forte em uma pose comumente masculina e vestida como rebitador. O slogan “We can do it” é um incentivo no tipo: vocês, mulheres, patriotas e abraçadas pelo governo, venham integrar nossa equipe para ganharmos a guerra. Tudo não passava de marketing, já que não havia qualquer defesa dos direitos feministas até então e a única intenção verdadeira era ganhar número para a engrenagem bélica não parar.

O cartaz era um dos muitos trabalhos de Miller, que foi convidado a fazer campanha pelos EUA em 1941, porém o que não era nem um pouco feminista, acabou virando. Um ano depois, quando os homens voltavam da guerra e as mulheres perdiam seus empregos, elas começaram a questionar seu lugar na sociedade e isso impulsionou o movimento feminista, que acabou adotando o cartaz como símbolo de sua luta. O pôster é feito a partir de uma fotografia de Geraldine Dolve, que era trabalhadora de uma fábrica, e só descobriu que era ela em 1984 ao ler na revista “Modern Maturity” um artigo que falava da foto.

3- “I want you for the U.S. army”

Outro símbolo de propaganda norte-americana, dessa vez um convite para homens se alistarem ao exército no período da Primeira Guerra Mundial. O cartaz traz o icônico Tio Sam com sua famosa cartola e apontando um dedo para você. Tio Sam na verdade é um comerciante que fornecia comida ao exército norte-americano durante a Guerra Anglo-americana, em 1812. Os barris de comida traziam as iniciais U.S. em referência ao país, mas por uma brincadeira dos soldados a sigla passou a ser usada como “Uncle Sam“, que se chamava Samuel Wilson.

O cartunista Thomas Nast, em 1870, deu cara ao famoso Tio Sam, mas usou os traços de Abraham Lincoln, ex-presidente dos EUA e herói da pátria, para criá-lo e vestiu nele as cores da bandeira da nação. Tio Sam só se tornou internacional durante a Primeira Guerra, quando os desenhos de Thomas foram refeitos por James Flagg como forma de campanha de alistamento militar. A partir daí, Tio Sam ganhou a pose que conhecemos hoje, e em 1961, o Congresso dos EUA o oficializou como símbolo norte-americano. Hoje, o Tio tem a pose mais imitada de todos os tempos, confira algumas:

4- Albert Einstein dando língua

Gênios são sérios… nem sempre. Albert Einstein, o todo poderoso da Física e ganhador do Nobel de 1921, tem lá seus dias de irritabilidade. Na verdade, não há um consenso entre os biógrafos de Einstein sobre a ocasião dessa foto. A teoria mais aceita hoje é a de que o fotógrafo Arthur Sasse teria pedido ao gênio, que comemorava seu 72º aniversário em 1951, para sorrir. Irritado e cansado da imprensa, ele teria virado o rosto e mostrado a língua para Sasse, que captou a imagem. Foi o início da famosa banana e do dedo do meio para os paparazzi.

A segunda teoria existente é a de que a foto seria parte de uma campanha anti- atômica realizada no período da Segunda Guerra Mundial, visto que o físico pedia às pessoas que enviassem cartas ao governo da Alemanha exigindo o fim das pesquisas nucleares e a sua língua seria usada para selá-las. A primeira teoria é a mais bem aceita pela mídia e é a mais usada hoje. Fato é que Einstein gostou mesmo da fotografia, tanto que a recortou, ignorando o Dr. Frank Aydelotte, na época diretor do Instituto de Estudos Avançados, e sua mulher, e passou a enviá-la para amigos em seus cartões postais.

 

5-“Almoço no topo de um arranha-céu”

Tirada em 1932 por Charles C. Ebbets durante a construção do edifício RCA Building, depois chamado de GE Building, pertencente ao complexo do Rockefeller Center, no centro da cidade de Nova Iorque. A fotografia mostra trabalhadores da construção civil em seu horário de almoço, sem nenhum tipo de segurança, sentados numa altura que corresponde a cerca de 69 andares. Uma outra, tirada também por Ebbets, mostra os empregados dormindo na mesma viga:

Desde que foi tirada, a imagem levanta suspeitas sobre sua veracidade e o jornal New York Herald Tribune levanta a hipótese de montagem em uma matéria publicada em 2 de outubro de 1932, considerando o risco de vida que os operários correm. A agência Corbis é proprietária do negativo de vidro usado para reproduzir a foto e a mantém protegida na chamada “Montanha de Ferro”, uma espécie de base subterrânea na qual se encontram outras fotos históricas. O jornal britânico The Telegraph visitou a base, localizada na Pensilvânia, EUA, e o diretor de fotografia da Corbis concordou em testar o negativo, comprovando a veracidade e a data, não se tratando de uma montagem posterior, como se suspeitava.

6- “O beijo do Hotel de Ville”

“O beijo, do Hotel de Ville”

1950, França. A revista americana Life encomendou ao fotógrafo francês Robert Doisneau uma série de imagens que retratasse os amantes de Paris, que seria integrada a uma reportagem sobre o assunto. Robert estava em uma cafeteria em frente ao Hotel de Ville quando captou a imagem do casal que se beijava intensamente enquanto andava no meio da multidão. A fotografia é um ícone do romantismo francês e durante muito tempo foi considerada um feliz acaso fotografado, mas em 1992, um casal afirmou ser o da foto e Doisneau, para desmascará-los, revelou a verdade.

Françoise com sua fotografia

O casal da imagem na verdade passeava normalmente pelo centro de Paris, quando o fotógrafo os pediu que posassem para ele, mas tal revelação não diminui o valor de mercado e Robert deu uma cópia ao casal verdadeiro como agradecimento. A mulher da imagem, Françoise Bornet (ou Delbart, como aparece em algumas fontes), aos 75 anos, leiloou a fotografia que guardou por anos por quase 200 mil euros.

7- “Uma garota americana na Itália”

O flagrante foi captado por Ruth Orkin, outra americana, em Florença em 1951. A moça, identificada como Jinx Allen, assim como a fotógrafa, viajava sozinha pela Europa e acabaram se conhecendo na Itália. As duas conversaram sobre experiências de mulheres solteiras viajando sozinhas e surgiu a ideia de montar uma série de fotografias com o nome de “Não medo de viajar só”. Jinx, hoje conhecida como Ninalee Craig, passava pela rua quando arrancou os olhares. Orkin a repara e pede que ela refaça o trajeto, gerando ainda mais euforia nos homens, que não sabiam da montagem combinada entre as duas.

Vítima de olhares, Craig é um contraste entre sensual e tímida, visto que traz o xale ao corpo como quem se protege quando percebe que está sendo alvo de comentários, olhares e risadas. Ninalee declarou: “Me cobri bem com meu xale. Era minha proteção, meu escudo. Eu estava caminhando por um mar de homens. Eu estava desfrutando de cada minuto. Eles eram italianos e os italianos me encantam”.

8- Ali vs. Liston

Neil Leifer, fotógrafo do “Sport Illustrated”, foi considerado um dos melhores do mundo do esporte. Em 1965, Muhammad Ali enfrentava Sonny Liston pela segunda vez em sua carreira. No ano anterior, Ali tinha saído vitorioso, mas o final desta luta estava bem controverso. Ainda no primeiro round, Liston caiu, mas muitos afirmam que a queda não era legítima e Muhammad começou a gesticular e a gritar “Levante-se e lute, estúpido!”, quando Leifer faz a foto.

9- A humilhação da primeira universitária negra nos EUA

Dorothy escoltada pelo doutor Thompson

Dorothy Counts foi a primeira mulher negra aceita em uma universidade tipicamente branca, a Harry Harding, na Carolina do Norte, EUA. Seu pai era professor de uma universidade majoritariamente negra e pastor, já sua mãe tinha diploma de nível superior e era dona de casa, mas ambos sempre incentivaram seus filhos a estudar e Counts conta que eles inscreveram ela e mais dois irmãos na universidade, no entanto apenas ela foi escolhida, e decidiu ir adiante. A fotografia tirada por Douglas Martin mostra Dorothy em seu primeiro e humilhante dia na universidade. Sabendo de todo o burburinho em torno da jovem, o fotógrafo correu para fotografa-la, assim como muitos outros.

Em 1957, a cidade brigava por uma integração racial, mas mesmo assim ela sofreu muito preconceito. Durante quatro dias, Dorothy foi cuspida, insultada, violentada e humilhada por ser negra, mas não reagiu a qualquer provocação e continuou de cabeça erguida. Sobre seu primeiro dia, ela conta: “Quando meu pai me levou naquela manhã, um de seus amigos da universidade, o doutor Thompson, nos acompanhou”, diz ela se referindo ao homem que a segue na foto. “A rua estava bloqueada e meu pai tinha ido procurar onde estacionar. Quando eu vi toda aquela gente, não pensei no que poderia acontecer. Eles tinham sabido pelo jornal que quatro estudantes (negros) tinham sido selecionados para escolas predominantemente brancas.”, conta ela.

Dorothy sendo ofendida por Hazel Massery, de vestido branco na fotografia

Na cidade de Harding havia um “Conselho branco” que pedia às pessoas que não permitissem a integração dos negros na sociedade, sendo a responsável por ele erauma mulher branca chamada Hazel Massery, que estava presente no primeiro dia de aula de Dorothy e é a que aparece de boca aberta na foto a insultando. Massery convocou uma multidão que acompanhava Counts em seu trajeto até a escola e incitava a violência contra a jovem universitária. A coisa ganhou tal proporção que não há somente alunos na foto, percebemos adultos a ainda a presença de menores. Ao perceber que a filha corria riscos e depois de receber ameaças por telefone, a família se mudou para a Pensilvânia, onde Dorothy passou a frequentar uma escola integrada. A insistência e coragem de quebrar a barreira racial foi um grande passo para o Movimento dos Direitos Civis e o fim da segregação nos EUA. Cerca de 40 anos depois, Hazel vem a público pedir perdão pela ofensa. Hoje, Dorothy é formada em psicologia, briga pela igualdade racial e tem um projeto em paralelo com o governo de Barack Obama atendendo vítimas de preconceito racial e social.

10- Humilhação pública da colaboracionista nazista

O fotógrafo americano Robert Capa capta o momento em que uma mulher francesa é perseguida por uma multidão que a chamava de traidora por ter colaborado com a invasão alemã na França. Era 1944, na cidade de Chartres, a França se libertava do regime nazista e a infeliz mulher anda ao lado de um soldado fardado que parece levá-la para a prisão e ela carrega um bebê no colo, fato esse que parece ser irrelevante ao povo que a ofende. O bizarro disso tudo é que as pessoas não sabiam de fato se a mulher tinha se envolvido com algum alemão ou se tinha denunciado franceses que espionavam pelo rádio, mas o motivo não importava tanto assim, já que havia um consenso de que qualquer contato, seja ele íntimo ou não, com militares alemães significava a exposição e o desprezo públicos. Quando acusadas de colaborar com o inimigo, as moças eram obrigadas a desfilar pelas ruas, a maioria tinha a cabeça raspada e muitas vezes nuas ou seminuas, sob vaias e agressões física e psicológica dos demais.

Henriette, o bebê no colo da moça da fotografia, conta em seu livro “Enfants maudits” (sem tradução para o português) a história de sua mãe, que era funcionária de uma cantina e acabou se apaixonando por um ajudante alemão. Os dois foram descobertos em um esconderijo pelo irmão da francesa, que os denunciou ao governo, mas durante o período de ocupação alemã (de 1940 a 1944), o trabalho da irmã havia os ajudado a sobreviver, já que eles viviam basicamente da renda que ela ganhava vendendo comida e tabaco aos alemães. Henriette conta ainda que “não foi minha mãe quem tomou a iniciativa de ir trabalhar na cantina dos alemães. Eles tinham necessidade de pessoal e haviam encarregado a Câmara Municipal de encontrar trabalhadores”. O alemão tinha 30 anos e era músico, sua mãe tinha 16 anos na época e ouvia por detrás das paredes, encantada com o som produzido por ele. Prosseguindo com o relato: “Minha mãe não foi conduzida imediatamente para a prisão. Eles foram levados pelos americanos para uma casa da aldeia que ficava diante da igreja e que na época era um hotel. Para ser mais precisa, acho que eram canadenses, pois foram eles que libertaram esse pedaço de terra. Finalmente, graças a eles, foi possível a ela não ter a cabeça raspada como outras mulheres da vila que haviam se ligado de alguma forma com os alemães. Essas pobres mulheres foram conduzidas ao tribunal da Câmara Municipal, onde suas cabeças foram raspadas antes de elas serem lançadas às ruas completamente nuas sob as vaias da multidão. Disseram-lhe até que na prisão, quando algumas dessas mulheres ficavam menstruadas, o sangue corria entre suas pernas. Minha mãe sempre disse que devia muito ‘aos americanos’ que haviam evitado que passasse por essa humilhação.”.

11- Jan Rose Kasmir e uma flor pela paz

 

Jan Rose Kasmir, uma adolescente com 17 anos, participa do protesto anti-Guerra do Vietnã em 1967. Rose se manifesta de forma inusitada. A jovem para em frente aos soldados norte-americanos armados e tenta colocar a flor que segurava no cano da arma de um dos homens. A foto foi tirada pelo francês Marc Riboud, um apaixonado por notícias e fã de momentos históricos, como esse. Em 2003, a moça foi fotografada novamente pelas lentes de Riboud no protesto em prol da liberdade Palestina e pelo fim da Guerra do Iraque, em Londres.

Kasmir hoje vive na Dinamarca e continua envolvida com ideais sociais e políticos que defendia em sua juventude. Marc Riboud, hoje idoso, é um renomado fotógrafo e todo seu trabalho pode ser visto no site.

 

 Fonte.

Anúncios