Homem provoca revolução feminina ao criar máquina de absorventes baratos na Índia

Shanti, Shanti, Muruganantham, OM
BBC
30/06/201410h11

Um homem simples, de uma família pobre na Índia, revolucionou a saúde menstrual em países de baixa renda ao inventar uma máquina que produz absorventes baratos. Para testar seu produto, até mesmo criou um “útero” artificial, com uma bexiga e sangue de cabra.

Amit Virmani/BBC30jun2014---fabrica-de-absorventes-na-india-1404136581967_615x300.jpg
O indiano Arunachalam Muruganantham criou uma fábrica de absorventes higiênicos mais baratos

Num país extremamente conservador e supersticioso, os experimentos de Arunachalam Muruganantham para desenvolver sua invenção tiveram grande custo pessoal – ele quase perdeu sua mulher, sua mãe e chegou a ser expulso de onde vivia. Mas manteve seu senso de humor.
“Tudo começou com a minha mulher”, diz. Em 1998, ele era recém-casado e seu mundo girava em torno de sua esposa, Shanthi, e sua mãe viúva. Um dia ele viu que Shanthi estava escondendo alguma coisa dele. Ficou chocado ao descobrir o que era – “trapos asquerosos” que ela usava durante a menstruação.
Quando ele perguntou por que ela não usava absorventes higiênicos, ela disse que não sobrariam recursos para comprar o leite.
Querendo impressionar sua jovem esposa, Muruganantham foi à cidade para comprar-lhe um absorvente. O produto foi entregue a ele apressadamente, como se fosse contrabando. Ele o pesou em sua mão e se perguntou porque 10 gramas de algodão, que na época custava 10 paise (o equivalente a menos de um centavo de real), eram vendidos por 4 rúpias (cerca de R$ 0,40) – 40 vezes mais. Ele decidiu que poderia fazer absorventes mais baratos.
Ele produziu um absorvente caseiro de algodão e deu a Shanthi, exigindo retorno imediato. Ela disse que ele teria que esperar por algum tempo – só então Muruganantham se deu conta de que a menstrução era mensal. “Eu não posso esperar um mês para cada avaliação, vai demorar duas décadas (para aperfeiçoar o produto)!” Ele precisava de mais voluntárias.

O tamanho do problema

Muruganantham descobriu, então, que quase nenhuma mulher nas aldeias vizinhas usava absorventes – menos de uma em cada 10. Suas descobertas foram comprovadas por uma pesquisa realizada em 2011 pela AC Nielsen, encomendada pelo governo indiano, que constatou que apenas 12% das mulheres em toda a Índia usavam o produto.

Jayashree Industries/BBC30jun2014---fabrica-de-absorventes-indianos-1404136456456_300x200.jpg
Muruganantham orienta as funcionárias de sua fábrica

Muruganantham diz que nas áreas rurais o uso é ainda mais raro. Ele ficou chocado ao saber que as mulheres não só usavam trapos velhos, mas outras substâncias anti-higiênicas, como areia, serragem, folhas e até cinzas.
As mulheres que fazem uso de panos muitas vezes sentem vergonha de secá-los ao sol, o que significa que eles não são desinfectados.
Aproximadamente 70% de todas as doenças reprodutivas na Índia são causados por falta de higiene menstrual – que também pode influenciar a mortalidade materna.
Encontrar voluntárias para testar seus produtos não foi tarefa fácil. Suas irmãs se recusaram. Então, ele teve a idéia de se aproximar de mulheres estudantes na faculdade de medicina local.
Apesar dos obstáculos culturais que dificultam esse tipo de abordagem, ele conseguiu convencer 20 alunas a experimentar seus absorventes. Só que no dia em que ele foi recolher os formulários de avaliação, viu três delas respondendo às pressas. Essas opiniões não eram confiáveis, pensou.
Foi então que ele decidiu testar os produtos em si mesmo. “Eu me tornei o homem que usava um absorvente”, diz ele .
Ele criou um “útero” fazendo alguns furos em uma bexiga de futebol e enchendo-a com sangue de cabra. Um ex-colega de classe, um açougueiro, passava em sua porta e tocava a campainha da bicicleta sempre que ele ia matar uma cabra. Muruganantham recolhia o sangue e misturava com um aditivo que recebeu de outro amigo em um banco de sangue para evitar que coagulasse muito rapidamente – mas isso não melhorava o cheiro.
Ele caminhava, pedalava e corria com a bexiga de futebol debaixo de suas roupas tradicionais, constantemente bombeando sangue para testar as taxas de absorção de seu absorvente. Todo mundo pensou que tinha enlouquecido.
Ele costumava lavar suas roupas ensanguentadas em um poço público e toda a aldeia concluiu que ele tinha uma doença sexual. Amigos passaram a evitá-lo. “Eu tinha me tornado um pervertido”, conta ele . Ao mesmo tempo, sua esposa se encheu e saiu de casa. “Então você vê o senso de humor de Deus”, diz ele no documentário Menstrual Man (Homem Menstruado). “Eu comecei a pesquisa para minha esposa e, depois de 18 meses, ela me deixou!”
Mas ele perseverou nos seus objetivos e resolveu analisar absorventes usados. Esta idéia trazia ainda mais risco em uma comunidade tão supersticiosa. “Mesmo se eu pedir apenas um fio de cabelo de uma senhora, ela suspeitaria que eu estou fazendo alguma magia negra para hipnotizá-la”, observa.
Ainda assim, ele conseguiu ajuda mais uma vez das estudantes de medicina. O problema é que sua mãe, ao vê-lo trabalhando com aquilo, ficou horrorizada, chorou e também o deixou. “Foi um problema para mim. Eu tinha que cozinhar minha própria comida”, disse.
Mas mais ainda estava por vir. Muruganantham teve que abandonar a cidade para evitar ser pendurado de cabeça para baixo em uma árvore por seus vizinhos que acreditavam que assim o currariam dos maus espíritos que o haviam possuído.

Jayashree Industries/BBC30jun2014---fabrica-de-absorventes-indianos-1404136289131_615x300.jpg
A máquina criada por Muruganantham é de fácil uso e manutenção

A descoberta

O maior mistério para ele era descobrir do que os absorventes que funcionavam com sucesso eram feitos, mas era difícil conseguir que a indústria revelasse seu segredo. Ainda assim, mandou algumas mostras para análises laboratorias, fez contato com empresas do setor e, após dois anos e três meses, descobriu que o insumo necessário era a celulose, retirado de casca de árvore. Mas ainda havia um obstáculo – a máquina necessária para transformar este material em pastilhas custava muitos milhares de dólares. Ele teria que criar o seu próprio.
Quatro anos e meio depois, ele conseguiu criar um método de baixo custo para a produção de absorventes. O processo envolve quatro etapas simples. Em primeiro lugar, uma máquina semelhante a um moedor de cozinha transforma a celulose dura em um material esponjoso, que é em seguida embalado em bolos retangulares com outra máquina. Os bolos são então envoltos com uma espécie de tela e desinfectados em uma unidade de tratamento ultravioleta. Todo o processo pode ser aprendido em uma hora.
O objetivo da Muruganantham era criar uma tecnologia amigável, fácil de usar. O objetivo não era apenas aumentar o uso de absorventes higiênicos, mas também para criar empregos para as mulheres na área rual – mulheres como sua mãe. Após a morte de seu marido em um acidente de estrada, a mãe de Muruganantham teve que vender tudo que possuía e trabalhar como lavradora. Ganhava apenas um dólar por dia, que não era suficiente para sustentar quatro filhos. É por isso que, com 14 anos, Muruganantham deixou a escola para encontrar trabalho.
As máquinas são deliberadamente simples e tem estrutura aberta para facilitar a manutenção pelas mulheres. Quando ele mostrou o primeiro modelo, feito basicamente de madeira, os cientistas do Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) foram céticos – Como este homem vai competir com as multinacionais? Mas seu objetivo não era realmente competir. “Estamos criando um novo mercado”, disse.

Reencontro

Sem que ele soubesse , o IIT inscreveu sua máquina em uma competição por um prêmio nacional de inovação. Ele ficou em primeiro lugar, entre os 943 competidores. Ele recebeu o prêmio do então presidente da Índia, Pratibha Patil – de repente, ele estava no centro das atenções .
“Foi a glória instantânea, mídia piscando na minha cara, tudo”, lembra ele. “A ironia é que, depois de cinco anos e meio, eu recebo uma ligação – a voz rouca diz: Lembra de mim?”
Era sua esposa, Shanthi. Ela não estava completamente surpresa com o sucesso de seu marido. “Toda vez que conhece algo novo, quer saber tudo sobre”, diz ela. “E então quer fazer algo que ninguém mais fez antes.”
No entanto, não era fácil conviver com este tipo de ambição. Não só ela ficou chocada pelo seu interesse em tal assunto, mas ele investiu todo o seu tempo e dinheiro – na época, eles quase não tinham recursos para comer corretamente. E os problemas foram agravados pela fofoca.

“A coisa mais difícil foi quando os moradores começaram a nos tratar muito mal”, contou. “Havia rumores de que ele estava tendo casos com outras mulheres e por isso estava fazendo essas coisas.” Ela decidiu voltar para casa para viver com sua mãe.

Após Shanthi, a própria mãe de Muruganantham e os antigos vizinhos – que o haviam criticado – voltaram atrás.
Muruganantham poderia ficar rico patenteando sua invenção – uma máquina de fazer absorventes baratos. “Mas eu não queria, porque eu sei que nenhum ser humano morre por causa da pobreza, tudo acontece por causa da ignorância.”
O inventor acredita que o grande negócio é um parasita, como um mosquito, enquanto ele prefere o toque mais leve, como o de uma borboleta. “Uma borboleta pode sugar o mel de uma flor sem danificá-la “, diz ele.

Reprodução/BBC30jun2014---absorventes-indianos-1404136188325_615x300.jpg
Processo criado pelo indiano permite que cada região fabrique suas próprias marcas

Tabus

Há ainda muitos tabus em torno da menstruação na Índia. As mulheres não podem visitar templos ou locais públicos, elas não estão autorizados a cozinhar ou tocar o abastecimento de água, por exemplo.
Muruganantham levou 18 meses para construir 250 máquinas, que ele destinou para a região mais pobre da Índia, no norte do país. Ele acreditava que se conseguisse difundir seu produto em um local tão conservador, conseguiria em qualquer outro lugar.
Para falar com as mulheres, era preciso permissão do pai ou marido. Há também mitos e medos que envolvem o uso de absorventes – que as mulheres que usam ficam cegas, por exemplo, ou nunca vão se casar. Mas, lentamente, aldeia por aldeia, houve aceitação cautelosa e, ao longo do tempo, as máquinas atingiram 1.300 aldeias, em 23 estados.
São as mulheres que produzem e vendem o produto diretamente às clientes e explicam seu uso, pois lojas são geralmente gerenciadas por homens. As compradoras muitas vezes nem pagam com dinheiro, mas trocar os absorventes por cebolas e batatas.
A maioria dos clientes da Muruganantham são ONGs e grupos de auto-ajuda femininos. Uma máquina manual custa cerca de 75.000 rúpias indianas (cerca de R$ 2,800) – uma semi-automática é mais cara. Uma máquina atende as necessidades de 3.000 mulheres e dá emprego a 10. Eles podem produzir 200 a 250 absorventes por dia, cuja unidade é vendida em média por 2,5 rúpias (R$ 0,01). Cada local de produção, pode criar sua própria marca.
Muruganantham também trabalha com escolas – 23% das meninas abandonam a educação, uma vez que começam a menstruar. Agora as estudantes fazem seus próprios absorventes. “Por que esperar até que eles sejam adultas? Por que não dar poder às meninas?”

Expansão

O governo indiano anunciou recentemente que iria distribuir produtos sanitários subsidiados para as mulheres mais pobres. Foi um golpe para Muruganantham que não foi escolhido para o trabalho. Mas agora ele tem os olhos no resto do mundo. “Meu objetivo era criar um milhão de postos de trabalho para as mulheres pobres, mas por que não 10 milhões de empregos em todo o mundo?”, pergunta ele. Ele está expandindo o modelo para 106 países, incluindo Quénia, Nigéria, Filipinas e Bangladesh.
Muruganantham agora vive com sua família em um apartamento modesto. Ele não tem nenhum desejo de acumular bens. “Eu tenho acumulado nenhum dinheiro, mas um monte de felicidade”, diz ele. “Se você fica rico, você tem um apartamento com um quarto extra – e então você morre.”

Anúncios