O homem que nunca foi nocauteado #Mandela

O homem que nunca foi nocauteado #Mandela

by Gustavo Magnani – Literatortura

Mandela é daqueles personagens que de uma maneira incompreensível escaparam das folhas, da tela ou de qualquer meio ficcional que você prefira, e por sorte de destino, resolveram ser de carne e osso. Bem sei que repetir clichês em cima de clichês não satisfaz nem a você, leitor, nem a mim, escritor, nem a Mandela, personagem da vida, aonde compôs uma história daquelas que, se fosse ficção, possivelmente geraria um suspiro de raiva por tamanha inverossimilhança narrativa. Mas, por ser real, gera suspiros admiráveis: lhe coloca num banco simples de madeira, daqueles baixinhos, com menos de 30 centímetros, e te faz ficar ali, sentado, calado, só querendo ouvir e aprender.

Nelson também sentou, calado, em um lugar moralmente baixíssimo: a prisão. 27 anos de uma vida resguardada à rotina diária, preso como o criminoso, que, de fato, o é. Criminoso por desejar que todos tenham os mesmos direitos, por desejar a igualdade para seu povo, o fim do apertheid, o respeito aos negros, por desejar que os humanos sejam mais humanos.
Crime. Dos graves.

E por eles pagou durante 27 anos da sua vida. Veja bem, estamos falando de quase três décadas. Eu, com 18, ainda precisaria viver 1/3 de sua pena pra equivaler em tempo.

Ele não morreu. Alguém acha que um homem dessa estirpe morre? No máximo, pede férias da vida e a Morte, sem ter muito o que dizer, o abriga.

Em tempos que esportes de luta fazem tanto sucesso, vale dizer que o ex-presidente sul-africano venceria todas as modalidades por resistência. Mandela não é um homem de nocautes, prefere esperar e mostrar que seus opostos, cedo ou tarde, 5 ou 27 anos depois, se cansarão, entregarão suas luvas e ainda farão questão de colocar o cinturão no vencedor. tudo pro mundo e pra inglês ver.

Ainda assim, esse personagem/homem é um sonhador consciente, que fez mais do que poderia e, naturalmente, não conquistou não para ele, mas para a humanidade tudo o que gostaria. A culpa, nesse caso, não é de Nelson, pois um homem, até ele, possui limites, por mais distantes de nós que eles sejam. E possuem, também, falhas, por mais raras que sejam comparadas a nós.

Pra mim, Mandela ainda deveria estar preso.

Não pra que ele ficasse longe de nós,

Mas para que nós ficássemos longe dele.

95 anos de todos aqueles clichês inverosímeis e românticos que a arte nos apresenta; 95 anos de todas as superações e vitórias que a realidade aparentava ser impossível de quebrar.

À Mandela.

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Uma crônica adaptada de 18 de julho, publicada originalmente aqui
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