Literatortura – Por que converso com os mortos? #ProjetoOlhares

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Por que converso com os mortos? #ProjetoOlhares

by Ana Idris

“Sobre a morte…basta dizer que, em alguns ponto do tempo, eu me erguerei sobre você com toda a cordialidade possível.Sua alma estará em meus braços.Haverá uma cor pousada em seu ombro. E levarei você embora gentilmente…” (Marcus Zusak – A menina que roubava livros)

Dia 29 de outubro de 2013, recebi um e-mail que eu nunca imaginaria que pudesse receber. Era um e-mail do Dr. Fortunato Badan Palhares, médico legista aposentado e atualmente médico patologista do Instituto de Patologia de Campinas, instalado na Maternidade de Campinas. Tenho de agradecer a premiada perita criminal na área química, Regina do Carmo Pestana de Oliveira Branco, que passou o meu contato a ele e falou do Projeto Olhares. Marquei com Dr. Badan para nos encontrarmos em seu consultório, no dia 6 de outubro de 2013. Foi numa quarta-feira chuvosa e um tanto fria. Um dia atípico na primavera campineira. Fiquei pensando em como seria minha primeira entrevista com alguém tão importante. Um misto de frio na barriga, perguntas a serem feitas, e o aperto dentro da linha 333 que me deixaria em frente à maternidade. Era 13h48, quando fiquei de frente com o médico legista mais polêmico do Brasil e conheci um pouco das histórias e cenários da medicina legal brasileira.
Cheguei ao aconchegante consultório onde Dr. Badan analisa amostras anatomopatológicas. Estava sentado no microscópio analisando uma amostra de células de mucosa uterina. Ao lado, uma pequena caixa com várias amostras, papéis para anotação dos laudos. Nas paredes, recordações, títulos que ganhou durante a longa jornada profissional, fotos, dois quadros, sendo um, um retrato dele desenhado pela filha e um quadro da esposa. Arrumei a parafernália que carrego comigo, o notebook e um tablet emprestado do meu irmão de 10 anos. Enquanto arrumava as coisas para darmos início ao nosso descontraído bate-papo, Dr. Badan tirou da estante um livro. Sentou-se na poltrona da grande mesa e escreveu uma dedicatória. Entregou-me o livro de suas memórias, que infelizmente não é mais vendido. O livro chama-se “Por que converso com os Mortos”. O nome teve referência a uma entrevista que Dr. Badan deu à revista “Veja”, em 1990, nas páginas amarelas, com o nome de “Os mortos falam”. As memórias foram organizadas pelo jornalista Joaquim de Carvalho e mostra com detalhes a trajetória e a contribuição de Badan para a Medicina Legal brasileira.

Dr Badan teve e ainda têm vários desafetos. Como todo profissional com reconhecimento, teve muitas situações desagradáveis ao qual passou, sendo que uma delas, a do caso PC Farias, ao qual passou rapidamente de “herói a vilão”, ocasionou um infarto. Creio que agora que mencionei o nome PC Farias, você, leitor, deve ter se recordado do caso. O intuito da matéria não é questionar se o laudo do Dr. Badan do caso PC Farias estava correto, nem questionar as acusações feitas contra a pessoa dele. Caso seja de interesse, na internet tem muitas matérias sobre o caso, cabe a cada um tirar suas conclusões. O intuito do Projeto Olhares não é este foco, quero deixar isso bem claro aqui. Coloquei o software de áudio para gravar, e foi então que começamos a nossa conversa. Você me acompanha nas próximas linhas?

Dr. Badan Palhares, em seu consultório localizado no Instituto de Patologia de Campinas, onde trabalha como médico patologista.

Dr. Badan atualmente tem 70 anos. A paixão pela área da saúde começou desde jovem. O pai, Geraldo Amaral Palhares era dono de uma farmácia na Avenida Jabaquara. Ele tinha uma vida humilde, recheada de sonhos e uma certeza de queria seguir para a área de medicina. A família passou por dificuldades em São Paulo, e então em 1958, mudou-se com a família para Campinas, onde reside até hoje. Estudou no “Colégio Estadual Culto à Ciência”, que era considerado uma das melhores escolas de Campinas. Pegava dois ônibus para chegar à escola, até que seu pai, por conta da alta despesa com o deslocamento,
– Fortunato, eu não posso mais lhe dar dinheiro para o ônibus. De hoje em diante, você passará a ir à escola em sua bicicleta.
Percorria cerca de 6 quilômetros diariamente e tentava conciliar os estudos com o trabalho na farmácia do pai, que foi aberta em Campinas. Posteriormente foi transferido para o “Colégio Estadual Vitor Meirelles”, onde desempenhou um importante papel pela consolidação do nome da instituição.
Depois de prestar o serviço militar, em 1964, Dr. Badan conseguiu o primeiro emprego na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, que na época era situada na antiga Maternidade de Campinas. Exerceu o cargo de Auxiliar Técnico de Laboratório. Este emprego motivou muito a seguir na carreira médica:
Queria ser médico, como eu sonhara quando criança, debruçado no balcão repleto de medicamentos da farmácia de meu pai. O fato de trabalhar em uma escola de medicina, me encorajava para esse fim e fui estimulado a persistir nesse ideal.
No primeiro vestibular para três grandes universidades públicas, Dr Badan não obteve sucesso, mas continuou trabalhando no laboratório e perseguindo o sonho em ser médico. Foi então que surgiu a oportunidade dele conseguir uma bolsa de estudos para Portugal, na Universidade de Coimbra. Trabalhou em uma livraria para conseguir sustentar-se em Portugal. Foi um período que além da ajuda financeira, permitiu que ele tivesse acesso às publicações científicas importantes para sua formação. Estudava na livraria todo sábado e domingo. Trabalhou na livraria até concluir os primeiros exames da faculdade. Como já havia trabalhado como auxiliar de laboratório, isso facilitou para que conseguisse a atividade na Universidade de Coimbra,
– Acabei como auxiliar do professor José de Gouveia Monteiro, da disciplina de fisiologia, em um projeto para identificação de sangue oculto em fezes, que ele desenvolvia com pacientes do hospital da faculdade. Minha função era colher as fezes dos pacientes de duas a três vezes ao dia e levá-las ao laboratório, homogeneizá-las, centrifugá-las e guardar para as análises que o professor realizava.
Em 1971, Dr. Badan prestou concurso para preenchimento de vagas remanescentes no terceiro e quarto anos dos cursos de Medicina, pois teve um número muito alto de reprovações. Conseguiu a vaga para a Unicamp, e retornou à Campinas, concluindo os estudos em Medicina, onde fez internato no Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Unicamp. Foram dois anos de residência,
– Fazia internato no Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal, quando fui convidado pelo professor Manuel Pereira para ajudá-lo nas práticas de medicina legal. Como não gostava muito de necropsias, viu em mim a oportunidade de poder contar com um auxiliar para ministrar aos seus alunos de graduação, noções de necropsias, particularmente em fetos. Ajudei-o nas aulas sobre infanticídio, e outros casos de mortes consideradas violentas pelo Instituto Médico Legal de Campinas. O professor era amigo do diretor do IML da época e conseguia que eu aproveitasse os corpos dos cadáveres já necropsiados pelos legistas do órgão para mostrar aos alunos. Talvez esse trabalho tenha despertado em mim certa curiosidade pelo desconhecido, pela complexa matéria do corpo humano, pela bioquímica, pela fisiologia e tanatologia que envolve a morte.
Assim que se formou, Dr. Badan prestou concurso público para médico-legista na Secretária de Segurança Pública de São Paulo. Ele contou-me como se trabalha como médico-legista no Brasil. Enfatizou que não existe uma residência médica específica na área, mas sim, cursos de pós-graduação que são ministrados em faculdades. Um local onde se ministra este curso, é o Instituto Oscar Freire, em São Paulo, que é o Departamento de Medicina Legal da USP. As inscrições, inclusive, estão abertas para quem estiver interessado, que claro, deve ter formação em Medicina.
– Hoje em dia não existe uma residência específica na área de Medicina Legal. Existem cursos para a área em algumas faculdades. O que existe hoje na verdade, são concursos públicos para médicos-legistas da Secretária de Segurança Pública (SSP), em que a pessoa que passa no concurso fica cerca de um ano na Academia de Polícia e após um novo exame, se torna apto à exercer a função. É interessante que haja uma boa explicação, porque na área de necrospsias, nós temos duas áreas distintas, sendo uma a área de verificação de óbitos, feita pelo Serviço de Verificação de Óbito (S.V.O) e outro que é o Instituto Médico Legal (I.M.L). O S.V.O é para poder avaliar mortes desconhecidas que não tenham causa violenta, no caso, uma morte clínica, morte domiciliar, isso quando a família não tem um médico que acompanhe o histórico do falecido. O I.M.L é responsável pelo caso de mortes violentas: acidentes, envenenamento, homicídios, entre outros. Quando uma pessoa morre em casa, vai para S.V.O e verifica-se uma suspeita de que a morte possa ter sido um envenenamento, por exemplo, é feito um boletim de ocorrência e então a polícia solicita um exame necroscópico médico legal. Necrópsias clínicas, são feitas no S.V.O, já as necropsias médico-legal são feitas no IML, para apurar a causa da morte violenta ou suspeita. O S.V.O é um órgão estadual, que pode vir a ser municipal, e as pessoas ou médicos que lá trabalham não obrigatoriamente são vinculados ao I.M.L. O que se costuma fazer, pelo menos aqui no estado de São Paulo, é que normalmente no local onde funciona o S.V.O, funciona-se também o I.M.L. Em Campinas, o S.V.O e o Instituto Médico Legal são no mesmo ambiente físico, localizado no Cemitério dos Amarais. Há essa separação bem nítida dos dois locais, porque até para ir para o I.M.L é necessário um requerimento policial. Para o S.V.O não. E também, para as faculdades de medicina, existem os serviços de anatomia-patológica que fazem todos os casos de morte que ocorrem em hospitais, que não possuem uma definição de causa morte.

Lição de Anatomia do Dr. Deyman (fragmento). Rembrandt van Rijn, 1656

Gravura de uma necropsia na época medieval.

Lição de Anatomia, de Rembrandt

Diante longos anos de trabalho na área de Medicina Legal, perguntei várias coisas para ele referentes à profissão, tais como os casos que mais chamou a atenção, quais os procedimentos para uma necropsia, casos curiosos entre outros.
– O primeiro caso que eu trabalhei dentro da Medicina Legal foi uma exumação. Primeiro eu tive de me orientar com legistas daqui de Campinas sobre qual deveria ser minha rotina de trabalho no caso de uma exumação. Na Academia de Polícia, eu sequer assisti uma necropsia. A minha formação teve umas falhas significativas, mas como eu trabalhei como docente de Medicina Legal na faculdade, e o I.M.L tinham profissionais antigos e já habituados com o trabalho, fui orientar-me primeiramente com eles, como o doutor Rodolfo de Tella, que me ensinou muito. A experiência com um corpo exumado é muito desagradável, o cheiro de um cadáver em estado de putrefação é algo ao qual nunca se esquece, mas nada disso me impediu de realizar o trabalho. Teve outro caso curioso, foi minha primeira necropsia, mas não como médico-legal, mas sim médico patologista. Foi o caso de um cadáver cuja morte foi causada por tuberculose. A minha grande preocupação nessa necropsia foi tentar me proteger para não me contagiar com a doença, foi até algo que foi exagerado na época, me protegi até demais, mas foi um receio contrair a doença. Foi um pouco estressante.

Diante do tema “proteção”, entramos em algumas questões sobre a situação da medicina legal brasileira. Não é de hoje que sabemos que muitos IMLs operam sobre um estado precário, em que os funcionários estão sujeitos a trabalhar em um ambiente altamente insalubre e muitos sem nenhuma proteção, com a alegação de falta de recursos. Basta procurar no Google sobre a situação dos IMLs brasileiros, e encontraremos muitos cenários de horror e desrespeito, tanto para com os funcionários, como para os cadáveres e familiares. Caso de corpos aguardando liberação sem estarem em ambiente refrigerado, pessoas realizando necropsias sem proteção, falta de equipamentos e tantos outros problemas, sem falar na precária remuneração dos profissionais.
– Existe todo um protocolo para se manusear um cadáver. Você tem que ter todo um equipamento que vão te proteger de se contaminar. Em muitos IMLs do Brasil encontramos um cenário onde não há recursos técnicos nem materiais permita exercer dignamente a profissão de patologista-médico-legal. O Estado, infelizmente não dá os recursos necessários para procedimentos simples, imagine para aqueles que necessitam de alta tecnologia. A Sociedade Brasileira de Médicos Patologistas e Médicos Legistas insistem com os governadores para que estas coisas possam ser resolvidas, mas o Estado só fica preocupado quando o caso tem maior repercussão, quando um político morre, quando pessoas importantes e poderosas passam pela situação. Aí tudo aparece, deputado aparece querendo fazer melhorias, a imprensa também dá as caras, mas, no dia-a-dia, ninguém aparece para querer saber como é o seu trabalho, como e com qual recurso você lida com a situação, quais são os problemas que você enfrenta. Nós temos bons profissionais na área, mas não temos recursos ideais, para que este profissional possa trazer as respostas corretas para que a sociedade possa se sentir segura.

Um caso recente do sucateamento dos IMLs brasileiros. O caso é do IML de Belo Horizonte. A foto é de 2012.

Diante de vários anos lidando intimamente e diariamente com o pior lado do ser humano, diante de tantas mortes violentas, perturbadoras, diante do processo natural de medo e negação da morte inerente ao ser humano, questionei sobre como ele se preparou para criar uma espécie de “blindagem” emocional para que consiga efetuar o trabalho, sem que a sensibilidade diante do caso de uma necropsia em uma criança, por exemplo, decorrente de homicídio, interfira na forma de trabalhar. Entendemos que uma mente sã e consciente, é fundamental para exercer o trabalho, mas tal “blindagem” é algo que pouquíssimas pessoas possuem. Lembro-me de uma frase que foi dita no século XVII, pelo filósofo La Rochefoulcauld:
“Não se pode olhar de frente nem o Sol nem a Morte”,
A Morte nos traz perturbação, o sol nos ofusca a vista, podendo nos deixar cegos. Diante disso, Badan me contou suas concepções, sua força, para ter trabalhado com esta questão durante tantos anos.
– Durante a minha caminhada como Médico Legista, eu tive um episódio que me marcou muito: eu vi meu irmão ser assassinado na minha frente. A partir daí, eu tive a certeza de que eu deveria fazer de tudo para defender a justiça, a ética e a verdade. Comecei a estudar muito, mais do que eu já estudava habitualmente, e eu pude ver o quão que me faltava de conhecimento. Foi então, que durante muitos anos de atuação como médico legal e chefe do departamento de medicina legal da Unicamp, eu lutei para que pudéssemos ter métodos novos, o aproveitamento dos demais departamentos da universidade, como os de física, química, biologia, para ajudar na elucidação dos casos. Dentro deste cenário, o Departamento de Medicina Legal da Unicamp foi um expoente no Brasil na excelência da resolução de casos, tanto como recursos como a grande equipe de profissionais envolvidos. Em questão da negação da Morte, eu sempre procurei ser frio, dentro deste aspecto. Nossa cultura mostra que você tem de ter conhecimento que a vida possui começo, meio e fim. Entendendo desta maneira, você espera que pelo menos as pessoas que estão mais próximas de você possam discernir isso, saber que a vida é desta forma. O inesperado é a Morte não natural. Eu encaro a Vida com muita naturalidade, e que nós devemos procurar de todos os meios, preservar a nossa vida, a nossa saúde. Uma morte violenta é muito mais difícil de aceitar, é um processo psicológico muito forte, pois é a perda de uma Vida em um momento que não era para ser. Principalmente as crianças, em mortes que não são previstas. Se uma criança pega uma doença grave, você pode se preparar para o que está por vir, pode ter um tratamento paliativo para preparar a fase do luto, não que seja fácil, mas diante de uma morte inesperada, como homicídio, estupro, acidente de carro, atropelamento, a dor é muito pior. Eu lutei para que isso não acontecesse, mas tive alguns casos que precisei lidar com a situação.

As atividades de um médico legista não envolvem apenas necropsias. É também realizado exames em pessoas vivas, o que é conhecido como “exame de corpo de delito”. Após passarem em uma delegacia para registrar uma ocorrência, ela é encaminhada para fazer exames no Instituto Médico Legal. Por exemplo, quando uma vítima é estuprada, é feito exames para comprovar se houve realmente a violação e a coleta de secreções. Nos exames de corpo de delito, o médico legista pode confirmar ou desmentir o caso, de acordo com suas observações durante o exame. Mas a maior parte do tempo, o maior trabalho que um médico legista tem é com as necropsias em cadáveres com morte suspeita ou morte violenta.
– A primeira coisa que devemos ter antes de realizar uma necropsia, é ter um bom histórico do ocorrido, mas nem sempre o delegado ou os peritos criminais nos entregam isso. Você tem de descobrir, através do cadáver o que realmente aconteceu com ele. Por isso o título do meu livro é “Por que converso com os mortos”. Através dos elementos encontrados externamente, tais como as roupas, os sapatos, as unhas, o cabelo, junto com as informações que você encontra junto ao cadáver, é que se forma o raciocínio para poder elucidar a causa da morte. Você pode ter casos de que aparentemente a pessoa morreu de uma causa natural, mas ao abrir o cadáver, com uma incisão que vai da virilha até o pescoço, você vai encontrar áreas como estômago, fígado, entre outros órgãos, com comprometimento hemorrágico, por exemplo, que chama atenção para um possível envenenamento. Diante deste caso, por exemplo, temos que colher material para vários tipos de exames físicos, químicos, histopatológicos. Estudar fragmentos do pulmão, cérebro, fígado, para ver se encontra o elemento que pode ter causado a morte. Retirado todo o material necessário para descobrir a causa da morte, o corpo é liberado para a família. Cada amostra retirada e o seu local de estudo é um procedimento. Depois de todos os exames estarem prontos, se junta todas as observações que foram anotadas, registradas da necropsia e busca-se a causa da morte. Quando ocorrem erros, ou não se encontra uma causa da morte definida, ou ocorreram erros no exame externo, interno e ou amostras. Neste caso, pode ser que seja chamada outra equipe para revisar todo o processo e encontrar a falha. Quando ainda assim não se acha uma causa, é solicitada uma exumação, o que é algo oneroso ao estado e complicado para a família que aguarda saber qual a causa da morte. Eu sempre digo que não existem crimes perfeitos, existem perícias mal realizadas. Se você souber procurar, você acha. Por mais planejado que seja o crime, existe sempre os imponderáveis. Você não consegue prever todos os elementos que podem ocorrer durante a cena, pode ser expert em medicina legal, mas sempre vai deixar algo para trás. Existem necropsias por aí em que o médico legista escreve apenas cinco linhas. Não teve a curiosidade, a vontade, de descobrir realmente aquilo quer era necessário.
Dentro do I.M.L temos uma gama de profissionais, todos vinculados à Secretária de Segurança Pública. É importante saber distinguir o trabalho de um técnico em necropsia e de um médico-legal e o vínculo existente entre a Polícia Técnico Científica, instituição administra a investigação criminal através dos peritos criminais. As pessoas costumam dizer que o médico legista é aquele que apenas assina o laudo, e o necropsista é aquele que “põe a mão na massa”. Indaguei Dr. Badan sobre essa diferenciação entre os dois profissionais, além da formação, e o trabalho dos peritos junto ao Instituto Médico Legal.
– O técnico de necropsia é um indivíduo que tem de ser bem orientado a não mexer no cadáver enquanto não estiver acompanhado de um médico patologista-legal. A maneira como ele receber o cadáver, ele deve permanecer. A partir do momento em que ele mexer no cadáver, ele pode estar alterando indícios que podem ser altamente relevantes. Muitas vezes o técnico de necropsia já abre o corpo antes da chegada do médico legista. E muitas vezes o médico legista acata isso. Apenas olha o corpo, faz um laudo “meia-boca”. Infelizmente é isso que acontece. Tem de saber como o corpo foi transportado do local até o IML. O ideal seria que o médico legista fosse até a cena do crime, o local da morte, junto aos peritos criminais. Infelizmente, no nosso sistema, o médico legista acaba ficando preso no necrotério. Quem vai ao local é o perito de campo, que na maioria das vezes não consegue pegar detalhes que um médico legal, até por conta da formação, conseguiria analisar. O pior é que muitas das anotações do perito na cena de crime nem chegam às mãos do médico legista, então, muitas vezes, acabamos trabalhando às escuras. Então, na hora do confronto de provas, acabam vindas as discussões. Por exemplo, no laudo do perito, diz que em um determinado crime que envolveu disparo de arma de fogo, o orifício x é o de entrada, mas na necropsia vê-se claramente que é um orifício de saída, por exemplo, o que muda completamente tudo. Existe uma falta de comunicação muito grande entre legista e perito. Muitas vezes só nos encontramos apenas no júri, e isso é um erro muito grave. Tanto o legista tem de ir à cena de crime, quanto o perito também tem de comparecer no necrotério para acompanhar de perto o andamento dos exames necroscópicos. Quando trabalhei como médico legista, eu comparecia até a cena do crime, e depois trabalhava em cima da necropsia do caso. Temos toda a abertura para realizar este trabalho, mas infelizmente a maioria não o faz. Eu já falei dessa necessidade em congressos, já conversei com o ministro da Segurança Pública, com o secretário de segurança, mas não há intenção por parte deles de tornar isso algo obrigatório. Só há interesse quando existe um político ou uma autoridade envolvida. Eles querem que você resolva a situação, mesmo não tendo condições.

Um dos casos conhecidos que ilustra essa pressa em resolver os casos, é o caso dos desaparecidos políticos, o famoso “Ossadas de Perus”. Em 1990 foi descoberta uma vala clandestina no cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. A maioria das ossadas era de indigentes da Grande São Paulo, mas foi descoberto, durante sete anos de estudos, seis desaparecidos políticos da época da ditadura militar. O trabalho foi extremamente exaustivo, envolvendo mais de 50 pessoas, entre alunos, professores e médicos-legistas da Unicamp. Trabalharam sem tréguas, durante sábados, domingos, feriados, manhãs, tardes e noites, sem remuneração extra ou compensações de horários.

Uma dia depois da abertura da vala clandestina no cemitério de Perus. Os 1049 sacos com ossadas foram levados para o Departamento de Medicina Legal da Unicamp, onde durante 7 anos foram investigados se haviam desaparecidos políticos da época da ditadura militar.

– Dos 1049 sacos, a sociedade esperava que se se encontra um grande número de refugiados políticos entre as identificações das ossadas. Só que a imprensa também não mostrou que daqueles 1049 sacos de ossos que foram para o Departamento de Medicina Legal da Unicamp, praticamente em quase maioria eram todos de indigentes da Grande São Paulo. Não tinha um histórico das sepulturas, nem o número de identificação do indigente, que poderia nos levar às fotografias que ficam armazenadas no instituto. Não tínhamos praticamente nada disso, o que impedia muito o trabalho de identificação. Não tinha nenhuma demarcação de onde estava cada ossada. Imagina o trabalho que tivemos para fazer toda a separação: ossos por idade, sexo, pessoas com deformidades esqueléticas, ossos que indicavam traumatismo que pode ter sido decorrido de alguma morte violenta. Tinham sacos que possuíam dois crânios, outros com um número infinitamente inferior de ossos, outros tinham 4 fêmures… Nós não tínhamos um laboratório de DNA para nos ajudar. Em decorrência disso, a imprensa execrou a Unicamp, dizendo que nós não queríamos levar a informação para a sociedade, como se quiséssemos esconder algo dos acontecimentos da ditadura. Muitos deputados, querendo mostrar serviço, vinham, falavam um monte de coisas, prometiam, mas não faziam absolutamente nada. É este o país que nós vivemos. É muito fácil questionar a visão dos outros, o trabalho dos outros, o difícil é você ajudar, ao invés de apontar o dedo sem ver o que realmente acontece.
Ao falar de indigentes, sabia que o número de corpos não reclamados ao IML é cada vez mais crescente? Quando um indigente é levado ao IML, é feito a necropsia, o corpo é catalogado, fotografado, identificado com uma numeração. O corpo é guardado durante 15 dias na geladeira do IML. Caso não seja identificado, é enterrado em vala comum, com a numeração de identificação que se levada até o IML, pode-se obter informação do local em que foi encontrado o corpo, as características externas e as fotografias para que se possa fazer uma identificação.
Sobre as precariedades e erros dentro do contexto de trabalho dos profissionais dos IMLs do país, a grande dificuldade que também impacta nas melhorias é a remuneração e a falta de reconhecimento, tanto para necropsistas quanto para médicos legistas. Geralmente o trabalho é como um “bico”, que o profissional faz quando ele pode fazer. Falta perspectiva no mercado, recurso, reconhecimento, e isso faz com que muitos profissionais não se sintam motivados a exercer a função, fazendo-a de qualquer jeito, sem os devidos cuidados. Hoje em dia, o piso salarial médio de um médico legista gira em torno de R$5000,00 mensais, mas há um enorme disparate entre uma região e outra. Existem regiões em que o salário gira em torno de 2 a 2500,00 reais, muitíssimo pouco tendo em vista a grande responsabilidade que este profissional possui, e os anos de estudos necessários para exercer a função, que exige conhecimentos multi-interdisciplinares além do emocional, que deve ser muito bem preparado. A responsabilidade é grande. Um laudo errado pode destruir a vida de uma pessoa inocente. A falta de uma boa estrutura de trabalho nos IMLs do país faz com que só os crimes de repercussão recebam a atenção necessária.
Um dos casos que mais mexeu com a questão emocional do Dr Badan Palhares, foi o Acidente Radioativo de Goiânia, caso que já escrevi uma matéria para a nossa filial Causas Perdidas. Para saber como tudo aconteceu, leia aqui.
O caso ocorreu no dia 13 de setembro de 1987, quando catadores de sucata abriram um equipamento hospitalar que estava abandonado no antigo prédio do Instituto Goiano de Radioterapia. No interior da capsula do equipamento, havia 100 gramas de Césio 137, altamente radioativo. O brilho do “Sal da Morte” atraiu muita gente, e acabou ocasionando o maior acidente radiológico da história. A história que o Dr. Badan conta a seguir é de emocionar e mostra o quão forte tem de ser um profissional nesta área. Ele examinou os pacientes afetados pela radiação, e depois necropsiou os corpos que vieram a falecer em decorrência dos efeitos da radiação.
Dr. Badan viajou com sua equipe para Goiânia, após a liberação da Unicamp e a autorização da Secretária de Segurança Pública. A função da equipe era examinar todos os internados, descrevendo o quadro clínico e as lesões epidérmicas de cada um, documentando tudo em foto e vídeo. O ponto inicial dos trabalhos foi no o do Hospital Geral do INPS, onde estavam internadas as pessoas contaminadas com menor gravidade e outras que somente tinham estado expostas à radiação. Os dois grupos exigiam condutas hospitalares diferenciadas, pois as vítimas eram consideradas fontes ambulantes de radiação, e por conta disso, as vítimas passaram por isolamento. Todas as excreções e roupas eram coletadas separadamente e armazenadas em compartimentos especiais, pois nada podia ser descartado na rede de esgoto. Para se proteger Dr. Badan e equipe usavam aventais de chumbo, os mesmos que eram usados em exames radiológicos, mas que segundo ele,“protegeriam tanto quanto um guarda-chuva em uma violenta tempestade de granizo”.
– Mesmo com muita conversa com os técnicos da CNEM (Comissão Nacional de Energia Nuclear) e do IRD (Instituto de Radioproteção e Dosimetria), eu não me sentia suficientemente seguro e estava apavorado com aquele cenário, sem imaginar que o pior estava por vir.
Da cidade de Goiânia, Dr. Badan e equipe partiram para o Rio de Janeiro, onde estavam internados os casos mais graves de contaminação. Foi no Hospital Naval Marcílio Dias, onde encontrou o caso mais difícil e sensível da carreira,
– Em um dos quartos estava internada Leide das Neves Ferreira, seis anos. Das vítimas, ela foi a que mais absorveu a radiação do Césio, pois não só manipulara as minúsculas pedrinhas radioativas como também ingerira uma pequena quantidade delas involuntariamente ao alimentar-se. Seu corpo emanava uma luminosidade azulada quando as luzes estavam apagadas, devido ao tamanho grau de contaminação de seu organismo. Tinha ferimentos nas palmas das mãos e no pescoço. Foi levada abruptamente para longe da família, dos amigos e de suas bonecas. Leide trazia o medo estampado nos pequenos olhos. Eu sempre fui muito sentimental, tenho verdadeira paixão pelas crianças e fiquei bastante atormentado de ter de examiná-la. Sua meiguice e a maneira como colaborou conosco nos exames, apesar de seu grande sofrimento, emocionou toda a equipe.
Dias depois, Leide veio a falecer e Dr Badan, que se encontrava em Campinas, recebeu uma nova solicitação da Polícia Federal, para que desta vez acompanhasse a necropsia. A princípio, ele achou que a necropsia seria realizada pela equipe do hospital militar, mas eles se negaram a fazer. Sendo então um perito oficial, Dr Badan assumiu a responsabilidade. Pediu ajuda ao IML carioca, porém apenas dois médicos legistas se propuseram a ajudar, Roberto Blanco e Silésia Marilac. O risco de contaminação era altíssimo e isso impôs o medo em todas as pessoas envolvidas. A sala foi forrada com plástico grosso, do chão ao teto, incluindo a pia e a mesa de necropsia. Foi expressamente proibido o uso de água. O sangue e demais excreções foram absorvidos por papel e acondicionados em sacos plásticos. Tudo o que era resíduo foi separado e entregue para o CNEN.
A única proteção que utilizaram foram os aventais de chumbo e o revezamento de 30 minutos para cada profissional, para que a contaminação fosse menor. Dr Badan teve de tomar doses de Iodo para combater a radiação que ele pode ter adquirido durante a necropsia de Leide e outras três vítimas fatais do acidente. As vísceras foram armazenadas na sede do I.R.D, onde técnicos do Departamento de Medicina Legal da Unicamp fizeram as lâminas histológicas para estudo. A necropsia foi documentada e filmada. Marcelo Costa Souza, que na época era chefe do departamento de Comunicação da Unicamp, projetou e construiu uma grua para a câmera de vídeo, para que o radiografista não sofresse com os efeitos da radiação.
-O caso foi triste. A Leide, quando nós abrimos o corpo para exame interno, ela tinha um quadro hemorrágico que eu nunca tinha visto. O Césio causou a destruição completa dos órgãos internos. Foi algo muito agressivo, tanto nela como para os outros três corpos das vítimas fatais, que eu também necropsiei.
No site do Dr. Badan tem algumas fotos do caso. Não é recomendado para pessoas sensíveis, mas é interessante do ponto de vista de como foi feito o procedimento e a situação do caso. Para ver essas fotos e outros casos do Dr Badan, acesse aqui.
Hoje, Dr. Badan Palhares não exerce mais o profissão como médico legista, mas continua atuando como médico patologista no Instituto de Patologia ao qual é sócio-proprietário. Nas horas vagas, ele gosta de pescar, hábito que ele confessa que adquiriu depois de velho, por influência do filho. Gosta também de leituras dentro da área de medicina e também de reler “O Pequeno Príncipe”, livro que ele indicou para toda a família e que será leitura obrigatória para seus netos. Apaixonado por futebol está sempre acompanhando os jogos do time do coração, o São Paulo. Tem um casal de filhos, Rhodrigo e Carolina. Rhodrigo seguiu para área de Engenharia e Carolina trabalha com pai, na administração do Instituto. Os filhos deram-lhe dois netos, um menino de onze anos e uma menina de cinco meses. Dr. Badan confessa que sempre trabalhou demais e meio que não teve tanta proximidade com os filhos, algo que hoje ele está aproveitando melhor. A esposa, Elizabeth, foi fundamental no desenvolvimento e educação dos filhos. Apesar de se considerar em muitos momentos, decorrente ao trabalho, um pai “ausente”, nunca deixou que nada faltasse a eles e não se arrepende das exaustivas jornadas de trabalho que teve durante a vida.
Tive um infarto e fiquei muito tempo numa UTI. Isso mudou um pouco a minha forma de enxergar as coisas. Vi o quão é importante estar presente no seio da família, mas não me arrependo do meu tempo em que me dediquei como médico. Eu acredito que fiz o que foi necessário ser feito. Hoje eu tento recuperar um pouco do tempo que não tive enquanto eu trabalhava. Estou muito próximo da família, tento ao máximo fazer de tudo para que eu acompanhe a trajetória deles, como pai e avô. Eu só me arrependo daquilo que eu não pude fazer.
Não poderíamos deixar de lado o estigma que todo profissional que lida com a Morte no dia-a-dia está propenso a enfrentar. Dr Badan passou por várias situações onde a ignorância rendeu situações diversas, onde se vê claramente que a falta de esclarecimento da área para a maior parte da população é bem visível,
Tive um caso muito pitoresco. Estava de plantão no Instituto Médico Legal, e teve um caso de que uma pessoa veio a falecer dentro do avião em pleno voo. Desloquei-me para o aeroporto de Viracopos, em Campinas. Os familiares foram notificados, compareceram ao aeroporto. Aparentemente ela teve um mal súbito, e os familiares pediram para eu liberar o corpo, coisa que eu não podia fazer enquanto não comprovasse de maneira clínica a forma da morte. Disse à família que era um caso de morte não esclarecida e que o corpo deveria ser encaminhado para o Serviço de Verificação de Óbito. Diante disso, um membro da família começou a gritar dizendo: “Vocês são um bando de carniceiros, açougueiros que só querem saber de cortar carne”. Diante disso você tem que se segurar e explicar para a pessoa que existe toda uma legislação que rege como as coisas têm de serem feitas. Isso mostra a falta de conhecimento da população sobre qual a função do médico legista.
Para encerrar a matéria, vou colocar o epílogo do livro de memórias que ele escreveu, seguido pelo trecho literário que Dr Badan escolheu como mensagem para reflexão ao final da matéria, de um livro de cabeceira que ele costuma reler várias vezes. A história do Dr. Badan Palhares na medicina legal brasileira tem várias linhas, muito mais do que estas que estão escritas aqui. Foi um profissional que passou por muitos desentendimentos, acusações sem provas que ganharam inúmeras manchetes na mídia brasileira. O intuito aqui não é contestar laudos e nem discutir as acusações que Dr Badan passou ao longo da carreira. Para podermos discutir, temos de entender os dois lados da moeda, e ter argumentos que comprovem com eloquência, as teses que tentamos explanar. Foi o médico legista de casos famosos, como o da reconstrução facial do médico nazista Josef Menguele, através da exumação do crânio, Chico Mendes, a morte de Raimundo Asfora,vice-governador da Paraíba, Silvio Leite, prefeito de Boa Vista, caso da santa que vertia lágrimas (que foi comprovado que era uma farsa forjada pelo padre da paróquia), entre tantos outros casos que por si só daria outro livro. Até a próxima matéria do #ProjetoOlhares. Tenho muitas outras histórias para contar…
“A minha participação em investigações controversas me deu a rica oportunidade de conhecer melhor a índole das pessoas as quais me relacionei. Tive gratas surpresas e amargas decepções. Pessoalmente amadureci muito. Profissionalmente, os casos que atendi em mais de vinte anos de atividade médico-legal ensinaram-me que os mortos falam. Aprendi, no fascinante cotidiano da perícia criminal, que é necessário perscrutar cadáveres com disposição e sensibilidade para ouvi-los atentamente, se queremos esclarecer os crimes dos quais foram vítimas. Diferentemente dos seres humanos vivos, eles não mentem, não trapaceiam, e relatam tudo o que um legista ou perito precisa saber.
Revelam como as lesões foram ocasionadas e que força utilizou o agressor ou agressores para produzi-las. Mostram a que distância um disparo de arma de fogo ocorreu, que tipo de arma e munição foram utilizados, se o corpo estava em movimento, parado, sentado ou deitado quando recebeu o tiro, qual foi o resultado do impacto do projétil, a trajetória executada e os órgãos atingidos. Por meio dos livores cadavéricos (cores que se alternam gradativamente na superfície da pele, por meio de processos físicos e químicos), informam há quanto tempo morreram. O conteúdo dos pulmões denuncia um afogamento; o do estômago expõe o que ingeriram e quando aproximadamente se alimentaram. O sangue aponta sem erro a morte por envenenamento, e basta um fio de cabelo para se conhecer a constituição genética impressa no DNA – este documento universal que distingue cada um de nós na face da Terra.
Um cadáver nos conta detalhadamente a história de um crime. Portanto, deve ser ouvido com muita atenção. Só não conversa claramente conosco se tentarmos mostrá-lo de maneira artificial, adulterando a cena do crime. Ainda assim, se soubermos lhe fazer as perguntas corretas, conseguiremos descobrir as alterações com que tentaram nos enganar.
É por isso que eu converso com os mortos.” (Dr. Fortunato Badan Palhares, “Por que converso com os mortos”)

“(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.” (O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway)

Ana Idris | novembro 13, 2013 às 6:28 am | URL: http://literatortura.com/?p=12966

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1 comentário

  1. Oi! Admiro muito essa profissão e sinto imensamente que ainda estamos anos luz atrasados nessa área. Se a saúde pública está um caos e abandonada, o que dirá a saúde dos mortos não é mesmo? Nossa ciência num todo sempre foi negligenciada. Mas quem abraça tal profissão por si só já mostra que é um guerreiro. Excelente matéria!

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