Pessoas que encaram diariamente a Morte: Tanatopraxista #ProjetoOlhares (by Literatortura)

Fantástica e emocionante matéria. Vale a pena ler e aprender mais sobre essa profissão incompreendida e essencial à sociedade.

publicação em Literatortura

Pessoas que encaram diariamente a Morte: Tanatopraxista #ProjetoOlhares

by Ana Idris

O primeiro tema do Projeto “Olhares” vai abordar a Morte e as pessoas que tem uma relação muito próxima a ela. São matérias com o intuito de informar e trazer olhares críticos e esclarecidos, e tirar todo aquele véu escuro que encobre os olhares medrosos e ingênuos. O conhecimento é capaz de desmistificar qualquer tabu. Cabe a você, a sabedoria suficiente para entender e julgar o conceito tal como à sua maneira, convém acreditar. O projeto “Olhares” vai trazer para vocês, a partir de agora, um retrato nu, cru e intimista sobre aquela que todos encontram no último suspiro.

Ao te curvares com a rígida lâmina de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas, cresceu embalado pela fé e pela esperança daquela que em seu seio o agasalhou. Sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens. Por certo amou e foi amado, esperou e acalentou um amanhã feliz e sentiu saudades dos outros que partiram. Agora jaz na fria lousa, sem que por ele se tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece. Seu nome, só Deus sabe. Mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir à humanidade. A humanidade que por ele passou indiferente” (Rokitansky)
Sempre fui fascinada pela Morte. Não encontro hoje, uma explicação que justifique este motivo. Meu primeiro contato físico com a Morte, além dos filmes de terror que assistia quando criança foi quando encontrei um pássaro morto caído na calçada. Consigo me lembrar como se fosse hoje, eu e André Luís, um amigo da escola que andava de mãos dadas comigo e que me escrevia cartas, um amor infantil, totalmente desprovido de malícia. Nós dois caminhando pela calçada e eu me deparo com aquele pássaro que em minha mente infantil de 7-8 anos na época, achava que estava descansando. Mas estava tão quieto, perante o olhar de duas crianças atentas esperando alguma reação assustada. Mas nada, o pássaro estava em um sono profundo, André olhava pra mim com cara de que também não estava entendendo nada. Peguei um graveto e cutuquei o pássaro, e tive a visão mais assombrosa de meus tempos de menina: vermes, muitos vermes numa dança desenfreada nas vísceras daquele animal. E aquele cheiro, o cheiro da Morte, a ação da cadaverina e putrescina, substâncias formadas a partir da decomposição. Era uma mistura de odores, as flores ao redor, as balas quadradas de doce de leite que André Luís mordia e o cheiro da Morte. Naquele dia, eu entrei em casa em silêncio, e apenas no dia seguinte começou uma série de inquietações sobre a finitude.

Hoje, eu vejo a Morte como um assunto pouco explorado, cheio de tabu, especulações, medo. Pessoas que lidam com a Morte no dia-a-dia sofrem preconceito por causa da total falta de informação. Enquanto procurava pessoas dispostas a contar as relações tão próximas com a Morte no dia-a-dia, ouvi várias histórias. Conheço pessoas que fazem da Morte o ganha pão diário e muitas pessoas evitam dar um abraço ou um aperto de mão, como se a Morte fosse contagiosa. Já vi pessoas atravessarem o outro lado da rua ao ver um carro funerário estacionado na direção delas. A Morte é carregada de estereótipos, sensacionalismo, tabus e mistérios.
Conheci Carolina Maluf numa de minhas procuras por pessoas que lidam com a Morte. Ela se considera como uma ativista na área. “Tenho histórias maravilhosas e terríveis para contar”. E foi com este efeito que eu passei uma noite inteira sem dormir, cheia de ansiedade para ouvir o que ela tinha para nos contar. Na terça-feira, dia 29 de outubro, por volta das dez e meia da manhã, começou meu bate-papo descontraído e intimista…
Carol, ou Nina, como é conhecida, é de São Paulo, tem 27 anos faz Enfermagem e trabalhou como Tanatopraxista desde os catorze anos. Foi criada pelo avô e pela avó. O avô, Ayrton, já falecido, foi o maior exemplo da vida dela. Ele era músico e anatomista da Universidade de São Paulo durante 40 anos. Além da USP, ele também preparava cadáveres para outras universidades, desenvolvendo várias técnicas de conservação. Foi com 8 anos de idade, que Carol teve contato com a Morte pela primeira vez.
– Meu avô era um cara excepcional, conhecia anatomia muito bem, e me ensinou muitas coisas. Meu sonho era ser médica legista, mas a grana era pesada… Então decidi me especializar em todas as coisas possíveis para me tornar uma profissional da Morte, cursos de tanatologia, cursos dentro da funerária municipal de SP, cursos e mais cursos. Tornei-me professora em uma das primeiras escolas de auxiliar de necropsia e em muitas outras e todas elas me prejudicaram ao ponto de desistir de trabalhar na área, prestei serviços para funerárias, e para o Instituto Médico Legal em São Paulo, onde aprendi muito, porém muitos deles não eram remunerados. – disse Carol.
Diante da surpresa do contato físico tão próximo e precoce com a Morte, indaguei qual foi a sensação que ela teve diante tal encontro. Ela me contou que se lembra como se fosse hoje, daquela manhã de domingo em que seu avô a levou junto para o laboratório de anatomia. Ao abrir a porta, o cheiro de formol invadiu o nariz, a ponto dela não conseguir abrir os olhos, que lacrimejavam:
– Meu avô riu muito, e pediu pra esperar um pouco do lado de fora, enquanto esperava, ele abria os tanques com os corpos, um tanque de perna, um de braços, e um grande que eu amei, com os corpos inteiros. Eu não lembro o que senti, mas sei que foi ali, naquele instante, que descobri o que eu queria da minha vida. Comecei a andar pelos corredores com aquelas estantes com animais e fetos em vidros, esqueletos, e achei aquilo incrível! Cheguei em casa dizendo: Quando eu crescer quero trabalhar com isso!
Carol foi uma pessoa em que a Morte fez parte da vida desde criança. Criada dentro dos conceitos do Kardecismo, ela aprendeu que o corpo fica, a alma vai embora. A Morte foi o sustento de sua família, que consistia em 8 pessoas, morando todos juntos, numa grande casa. Mesmo sendo parte de uma minoria que tem a consciência preparada de que nada é para sempre, Carol sofreu com a perda do avô.
– Cada gesto dele me marcava, o sorriso, o jeitão dele… O jeito que ele tocava bandolim (ele era chorista). Tudo isso mexeu comigo. Era um cara de palavra…

Por viver em um mundo tão diferente, Carol esteve e está à mercê de toda sorte de julgamentos. Eu conheci um necropsista que um dia fez um jantar em família e chamou amigos próximos. Um dos conhecidos levou dois amigos, que não sabiam da profissão do dono da casa. Ao saberem que o dono do jantar trabalhava com mortos, se negaram a comer. Segundo ele, “tem gente que evita cumprimentar-me, dar um abraço, como se a Morte fosse contagiosa”. Carol nunca ligou para a opinião das pessoas. No íntimo, até gostava que as pessoas tivessem olhares estranhos pra ela e a chamavam de esquisita. As pessoas tinham medo dela, e ela tirava proveito disso, realizando provocações,
– Uma vez eu achei um gato morto aqui na esquina de casa, ele estava entrando em decomposição e eu o amarrei num saco e pendurei numa árvore pra encher o saco de uma vizinha. A casa dela ficou fedendo uns dois dias. Mas nunca me preocupei com a opinião de ninguém. Minhas brincadeiras favoritas eram fazer cortejo: enterro de gatos e peixes. Tudo o que morria eu fazia velório.
O primeiro curso que Carol realizou para sua formação foi o de Necromaquiagem, mas ela afirma que a principal formação dela foi a vida. Não existem cursos regulamentos, aliás, a profissão de Tanatopraxista não é regulamentada pelo Ministério do Trabalho. Carol conseguiu fazer uma parceria irregular no I.M.L (Instituto Médico Legal) e trabalhou de graça no local pra ganhar experiência. Segundo ela, o único curso no Brasil que tem validade, é o da C.T.A.F (Centro de Tecnologia da Administração Funerária), onde ela se formou. Mas ela sempre enfatiza, que, além disso, é extremamente necessário fazer cursos pra entender as fases do luto, cuja ciência se chama Tanatologia, que é o estudo da Morte.
Durante a conversa sobre a formação de um Tanatopraxista, ela me contou que a maioria das escolas utiliza-se de falsas promessas. Alegam que é fácil conseguir emprego nesta área, que o curso é regular, os estágios são regulamentados.
– É mentira, pois os IMLs não permitem que pessoas que não sejam do Serviço de Verificação de Óbitos ou da Polícia Civil permaneçam nas salas de necropsia sem autorização. Isso é crime, pois as escolas pagam para técnicos corrompidos fazer esse tipo de trabalho. Eu trabalhava pra eles de graça, um tipo de estágio, mas a chefia imediata sabia da minha existência, agora as escolas não comunicam os superintendentes dos IMLs.
Mas afinal, você leitor, deve estar se perguntando, o que é a Tanatopraxia? A Tanatopraxia é uma arte, milenar, que segundo estudiosos, têm suas origens lá no Egito Antigo, onde várias técnicas eram empregadas para manter os cadáveres conservados. Você não sabe por que quando vai ao enterro você não sente cheiro, a pessoa se mantém como se estivesse dormindo, mesmo depois de ter passado por uma morte traumática? Pois bem, vamos conhecer como isto é possível.
As técnicas de conservação são feitas através de máquinas de infusão, que levam os conservantes, para as cavidades corporais. Antigamente o processo era feito por “gravidade”. Cortava-se a jugular e massageava-se para tirar todo o sangue do corpo. Através de cânula inserida na carótida, a gravidade fazia com que todo o sistema circulatório “expurgasse” o sangue para fora, para dentro de um balde. Hoje, a Tanatopraxia abrange uma série de técnicas, que vai da assepsia e conservação de cadáveres, até a reconstrução (facial, por exemplo, em caso de tiros e outros deformações no rosto) e estética (unhas, cabelo, maquiagem). Cada técnica é composta da outra. Quão mais completo o profissional, torna-se um pouco mais fácil de encontrar vaga na área, mas isso não é uma promessa.
A preparação do corpo está diretamente relacionada à “causa mortis”, ou seja, como a pessoa veio a falecer, em seguida às solicitações dos familiares, pois, por exemplo, um corpo que vai ser velado em outro país tem tratamento diferente daquele que vai ser velado na mesma cidade em que ocorreu o falecimento. É preenchida uma ata de embalsamamento, preenchida com os dados do cadáver e com CRM do médico responsável pela identificação do óbito. Depois, o corpo é colocado em uma mesa de metal ou mármore. Em corpos que não passaram em necropsia, depois de avaliada a causa da morte e o desejo da família, é feita a infusão dos líquidos de acordo com o grau de decomposição do corpo. É retirado todo o sangue presente no corpo, através de uma incisão na carótida ou artéria femural. O sangue passa por um processo muito rápido de oxidação, o que também acelera ainda mais o processo de decomposição. Depois da retirada do sangue, é feito uma incisão na altura do tórax e outra no abdômen. Primeiro aspira-se o tórax, colocando uma cânula de aspiração, que retira todos os fluidos da cavidade torácica. Depois, faz-se a aspiração do abdômen. Sempre nesta ordem, tórax e depois abdômen. Todo cuidado é pouco na aspiração abdominal, para que não ocorra perfuração do intestino, pois caso isso aconteça, haverá a contaminação por fezes. O processo de aspiração abdominal demora cerca de 50 minutos.
– Após a limpeza da cavidade torácica e abdominal, empanam-se os órgãos com serragem coloca de novo e fecha tudo. A serragem ajuda a secar os órgãos e evita possíveis vazamentos.
Os laboratórios de Tanatopraxia tem de estar com as instalações dentro das normativas da Anvisa (Agência Nacional da Vigilância Sanitária). Tem de conter uma fossa séptica para o despejo de material orgânico, para que não se contamine o solo e lençol freático com resíduos tóxicos e cadavéricos. – diz Carol.



Uma tanatopraxia mal feita causa estragos e prejuízos milionários. Uma aspiração mal feita vazou em um avião da Gol, ocasionando a perda de 30 malas, devido aos fluídos que vazaram durante o voo. Gerou uma multa de 200 mil para o dono do laboratório de tanatopraxia (conhecido como tanatório) e 100 mil para o dono da funerária.
A profissão lida com risco muito alto de contaminação, mas geralmente não é pago adicional de insalubridade para os profissionais e muitos deles são totalmente descuidados com a própria saúde, não utilizando equipamentos de proteção. Segundo Carol, já vou profissionais fazendo procedimentos de chinelo e regata. Todo trabalho que lida com substâncias biológicas ou de risco químico, tem de ter adicional de insalubridade. Por não ser uma profissão regulamentada, os profissionais estão à mercê de baixos salários e descumprimento de leis.

Diante de um trabalho que exige nervos e estômago de aço, perguntei para ela qual foi o caso mais difícil que ela já presenciou,
– Casos de criança mexem muito comigo. Teve um caso que peguei, que foi um dos primeiros casos envolvendo preparação de corpo de criança. Uma menina de dois anos foi violentada até a morte pelo pai. A mãe, sem a menor cerimônia, chorando bastante me disse: “Eu sabia que ele fazia isso, mas não sabia que iria matá-la”. Eu fui pra cima, segurando-a pelo braço. Levei-a até o caixão da filha, pelos cabelos, e disse que ela nunca merecerá a dádiva de ser mãe. A criança estava no caixão e a culpa era dela. Depois disso, fui trocada de setor, mas todos ficaram ao meu favor, diante da situação.
A parte prática é essencial para esta vivência. Na prática, é visto toda a gama de casos e situações que a profissão pode ter. É aí que entram os estágios, feitos geralmente de forma irregular.
– Esses estágios são negociados com técnicos em horário onde a chefia não está. Mandam um professor responsável até o local junto com os alunos. Recebemos cerca de 40 reais a hora, e os alunos veem a necropsia e a preparação do corpo, que muitas vezes é feita dentro do IML.
Não pode tirar fotos, para não gerar provas contra a escola. Por ser um ambiente investigativo, e somente quem tem autorização podem entrar, essas escolas pegam IMLs do interior para ministrar esses cursos que são ilegais, pois somente a Academia de Polícia (ACADEPOL) pode ministrar.
Carol também tomou um enorme prejuízo das escolas ilegais. Tomou calotes que chegam perto de R$9 mil reais. Quando falei que isso era uma causa trabalhista e que ela deveria ir à Justiça, para procurar seus direitos, ela alegou que o trabalho não era registrado em carteira profissional, justamente pelo curso ser irregular.
Ser mulher também foi algo que trouxe problemas dentro da profissão. O conceito errôneo de “sexo frágil” também é presente dentro do setor. Carol conta que quando foi prestar serviço em uma funerária,
Um dos caras virou e disse: “Você não aguenta uma semana! Vou levar você pra fazer recolha, pois pra mim você é apenas uma vadiazinha procurando o que fazer e querendo chocar os outros.” Em 3 dias efetuei 5 remoções e executei todos os casos sem a ajuda dele, junto com um colega motorista. Mesmo assim, ele continuava me desafiando e colocando em casos complicados. Mas tudo o que eu faço, eu faço com amor. Ele saiu e eu fiquei.
Outro caso que intriga e é de curiosidade de toda pessoa frente àqueles que lidam com a Morte no dia-a-dia, é como eles lidam com os “podrão”, termo dado para os cadáveres em estado adiantado de decomposição. Segundo quem já teve contato, dizem que é o pior cheiro do universo. Carol me contou algumas situações que lidou com estes casos,
– Um dia, cheguei fedendo em casa. O meu filho falou pra mim: “Oooo mãe… Você vai tomar banho né? Porque eu acho que você está fedendo muito!”
O cheiro de um cadáver em decomposição é tão grudento, que muitas vezes, na maioria dos casos, quem lida diretamente com os corpos tem de tomar banho com limão ou borra de café, para neutralizar os odores. Segundo Carol, molho de tomate também costuma funcionar. Quando o corpo está em decomposição avançada, não há o que fazer, é caixão lacrado,
– Caixão lacrado com pó de grafite, enxofre e cal pra amenizar o cheiro.
Carol lidou com esses casos extremos cerca de 4 vezes. Em um deles, o estado de decomposição era tão alto, que ao recolher o corpo um braço se soltou. Outro caso foi de uma moça que cometeu suicídio numa banheira. Foi encontrada apenas com parte dos braços inteiros, onde se via a causa da morte, um corte profundo nos pulsos.
A Tanatopraxia também envolve reconstrução facial ou de outras partes do corpo. Serve para deixar uma pessoa que passou por uma deformação (tiro no rosto, linha de cerol, esmagamento facial…) apresentável no enterro. Carol tem um caso famoso, que foi dado créditos indevidos no programa da NatGeo, “Tabu Brasil: Cadáveres”,
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– Vou falar do caso da NatGeo, em que meu ex-aluno, Miguel, mentiu dizendo que o caso era dele. Ele foi meu aluno,sabe que fui eu que fiz a reconstrução, mas tomou a autoria da para si. A vítima foi uma mulher com cerca de 30 anos que foi esfaqueada: 35 facadas desferidas no rosto e nas demais partes do corpo. O crime aconteceu em Suzano e na hora da preparação do corpo, estava eu e mais 8 alunos. Deixei-os fazendo as suturas do corpo enquanto eu fazia preenchimentos e suturas intradérmicas no rosto. Este caso, se não fosse o meu trabalho para reconstrução, seria caixão lacrado. Fiquei 3 horas trabalhando na reconstrução facial dela. No fim foi caixão aberto e isso gerou repercussão pra funerária. Na semana seguinte a mãe da garota foi me agradecer, disse que ficou impressionada de como estava e como ficou o resultado final.
Perguntei à ela como a equipe do programa chegou até o caso,
Eles estavam procurando pessoas pra fazer parte desse projeto, anteriormente entraram em contato com a escola, e depois em contato comigo. Estava tudo acertado. Mas, entraram em contato com o dono da escola, que não gosta de mim, e então colocou o rapaz Miguel. Ele foi meu aluno, e na reportagem é tratado como se esse cara tivesse muitos anos na área, mas na verdade, ele havia acabado de se formar… Ele mentiu sobre a sua profissão, sobre o trabalho executado. Eu tinha conseguido o campo pra estágio e eles tiraram de mim, e de quebra usaram como locação das gravações.
Questionada se ela possui provas de que o caso teve falsa atribuição de trabalho, ela disse que possui oito testemunhas que podem comprovar que foi ela que na verdade reconstruiu a face do caso apresentado no programa.
– Ele disse que estava ele e mais uma professora, como se ele tivesse executado o trabalho junto comigo, ele fez apenas uma cagada da qual eu tive que arrumar. Nada mais. Não falou meu nome e nem sequer deu os créditos que me eram merecidos, pois sou muito boa naquilo que faço.
Outro caso de reconstituição facial que Carol me relatou, foi o caso de um suicídio com tiro de espingarda,
– Menino com cerca de 20 anos quase perdeu a face, a cabeça dele parecia uma flor. Consegui caixão aberto após 7 horas de trabalho de reconstrução.
Carol já teve casos de que por causa de religião, a família não quis realizar o processo de tanatopraxia. Nos países europeus, a tanatopraxia é obrigatória, aqui no Brasil, é opcional. Como o corpo não teve os procedimentos de assepsia e conservação ocorreu vazamento durante o velório, o que é um grande constrangimento para a família. No Brasil, não existe leis regulamentadas. Nosso código penal e civil tem muito pouco do tratado do direito funerário. A Tanatopraxia só é obrigatória para translado aéreo, terrestre (de longas horas de percurso) e velório estendido, como foi o caso do papa João Paulo II.
Carol passou pelo estereótipo que as pessoas tem com este tipo de profissional. Contou-me que seu apelido carinhoso é “Urubu”. Disse que existe de fato este conceito que as pessoas dizem que quem lida com a Morte no dia-a-dia são pessoas frias.
– Tem esse mito aí, de pessoa fria… Mas eu tenho 4 filhos, um quase marido maravilhoso! Tenho sentimentos nobres e tudo, mas tudo que eu faço, faço com amor para aqueles que ficaram… Porque quem foi, já foi. Mas sim, existe esse estereótipo!O apelido fofo que eu amo é o de “urubu”.
Sempre me questionei como estes profissionais lidam com os aspectos psicológicos que envolvem o trabalho, como eles fazem que todos estes acontecimentos, em sua maioria de grande complexidade, devido a cenas fortes, como casos de morte por estupro, suicídio, espancamentos, acidentes. Como eles se preparam para que o lado emocional não interfira no dia a dia e deixe que todo o controle físico-mental venha por água abaixo.
Existe todo um trabalho, uma preparação em cima do que eu faço. As pessoas não costumam levar isso em consideração, mas existe sim. Independente de qualquer coisa, como já havia dito, minha família é Kardecista, eu sou Umbandista, mas na verdade não é a religião que me ajuda a suportar, é o amor que eu tenho por aquilo que eu faço. Agora, temos também aqueles colegas que no 2o ano de trabalho sai correndo porque não aguenta. Você lida com a maldade do ser humano todos os dias, o pior lado das pessoas, e lida com algo que no fim você nunca acha q vai acontecer com você.
Apesar de todos os casos que Carol presenciou, ela nunca perdeu a fé na humanidade, pois todos os casos tenebrosos que ela presenciou, a move para ser uma pessoa melhor. O Amor que ela possui pela profissão faz toda a diferença. É o que lhe dá forças. Hoje, Carol não trabalha efetivamente na área, mas trabalha conforme demanda. Ela levou muitos tombos financeiros, preconceito por ser mulher, e o que mais fez deixar de trabalhar integralmente nesta área, foi a falta de respeito com os cadáveres. Carol contou-me que,
– Quero fazer um trabalho diferenciado, mas agora de outra forma. Eu dei aulas em várias escolas, e todas elas me devem muito dinheiro, pois querem que eu minta para os alunos e eu não sei fazer isso por conta de saber a dificuldade que vivenciava todos os dias. Existe uma grande “panela” por trás de tudo isso. Gente envolvida na política, que me enquadrou diversas vezes pra não tentar colocar projetos pra rodar, pra não prejudicar os negócios deles, questão de regulamentação e tudo mais. Isso iria ser prejudicial pra quem é politiqueiro. Vereadores e deputados que se eu falar os nomes colocarei em risco a minha segurança e a da minha família. Fui muito ameaçada e vi desrespeito no sentido de quando morria mulher, era obrigada a sair da sala porque tínhamos um técnico sabidamente necrófilo, e a equipe apoiava a conduta dele. Decepcionei-me demais. Tenho vontade de fazer um trabalho diferente.
Atualmente faço enfermagem e pretendo me especializar em cuidados paliativos em pessoas que estão na fase de pré-óbito, cuidados pra amenizar a dor da morte em pessoas com doenças terminais, amenizar e preparar as famílias. Prestar toda a assistência à família enlutada e toda a estrutura para que aquele corpo seja tratado com dignidade. Outro projeto de vida que eu tenho, é escrever um livro, que vai falar basicamente sobre a minha história como tanatopraxista e tanatóloga por excelência. Vai tratar de processos de luto, história da morte, e a história da minha família, e por fim cuidados paliativos, o preparo para o luto.
A profissão de quem lida com a Morte é uma caixinha de surpresas. Não tem como prever o que você vai lidar diariamente…
– Aconteceu com um colega de profissão, o pai dele estava desaparecido há 20 dias, e ele puxou o corpo e gritou, jogando-se em cima. Depois de um tempo a gente conseguiu entender o que aconteceu. Ele foi afastado. A nossa profissão é uma caixinha de surpresa, não tem como saber.
Além da Carol tanatopraxista, existe uma pessoa como eu e você. Que ama a vida, e não o contrário. Ela não carrega o estereótipo da pessoa que só pensa em morte o tempo todo. Carol me disse que é uma pessoa muito feliz. Que as pessoas geralmente estranham como uma pessoa tão bem com a vida, sorridente, engraçada, poderia ter um trabalho tão mórbido e cercado de “tristeza”. Carol tem 4 filhos, adora sair com eles, fazer bagunça, namorar o “quase maridão”. Ela me disse que a profissão fez com que ela desse valor para as pequenas coisas da vida,
– Como ouvir música num dia nublado e sorrir, olhar o sol de manhã e sentir aquele calorzinho gostoso e sentir: Puxa! Que bom que eu estou aqui! Ver meus filhos sorrindo, comer sem sentir culpa, sentir o sabor das coisas e poder desfrutar disso. Assistir minha série favorita, abraçada com meu marido, assistir os filmes do Tim Burton…
Carol conheceu o marido durante as aulas. Ele foi seu aluno.
O conheci em abril de 2011, no Cemitério do Araçá, às 8 horas da manhã. Em junho de 2011 estávamos em um estágio noturno e depois de muitos dias flertando, acabamos ficando juntos
E tivemos o Gregório, o nosso caçula. Estou doida para subir no altar, essas coisas de mulher… Quero passar o resto de meus dias ao lado dele e de meus filhos.

“Este desenho meu marido fez pra mim”

Perguntei para ela se ela queria deixar uma mensagem para todos os leitores do Literatortura. Um recado da Carol Tanatóloga e Tanatopraxista e a Carol, gente como todo mundo. Ela me contou em tom humorado, que “A vida é curta demais pra perder tempo com quem não vale a pena. Corra atrás, dê valor ao que é simples e não escute Calypso…”. Negligenciamos demais a vida, corremos rápido demais nas estradas e ao final, chegamos a um lugar que não almejamos estar. Para encerrar a matéria, que eu espero que faça cada leitor pensar e refletir pedi para ela citar um trecho favorito de um livro, para fechar a matéria com a cara do Literatortura. Espero que tenham gostado desta primeira matéria do Projeto “Olhares”. Espero trazer muitas informações que construam uma opinião sólida, frente a tantos olhares desacostumados. Até a próxima!

Trecho do livro “A menina que roubava livros”

Ana Idris | novembro 2, 2013 às 4:06 pm | URL: http://literatortura.com/?p=12861

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