Laurentino Gomes e Mary Del Priore: Fatos, lendas e personagens da história brasileira

Laurentino Gomes e Mary Del Priore: Fatos, lendas e personagens da história brasileira

by Monique Almeida

De todos os painéis que acompanhei nesses três dias, julgo esse ter sido o melhor. Com a presença do (principalmente) jornalista e escritor Laurentino Gomes (1808, 1822 e 1889) e a historiadora e escritora Mary Del Priore (Condessa de Barral, O Príncipe Maldito, entre outros) foi feita uma discussão de personagens históricos com essas duas figuras que são odiada e idolatrada, respectivamente e por maioria de votos, nos cursos de História.
A conversa com ambos foi extremamente dinâmica, quebrando com o padrão do “Café Literário” que se apresenta sempre mais denso, mais profundo, exigindo uma atenção maior. A grande questão, porém, foi que nesse mesmo painel, característico de conversas mais analíticas, um documento de uma visitante perdeu-se por conta da sessão anterior. Que a organização não estava das melhores já estava claro, bastava andar um pouco pelo espaço para ouvir o que o público comentava, mas chegar ao nível de perder o documento das pessoas, aí a situação se tornava realmente crítica.
Enfim, a discussão foi descontraída, servindo até como revisão de História do Brasil, numa abordagem um tanto mais chamativa, passando pela análise da aristocracia rural e escravagista, transbordando o terreno da caracterização social, mas, acima de tudo, trazendo personagens clássicos como Dom Pedro, Carlota Joaquina, Maria Adelaide, Marechal Deodoro, e muitos outros, para um relato mais íntimo de suas personalidades do que as imagens montadas em quadros da elite que estamos habituados.
“Todos os personagens são apaixonantes, você não acha?” indaga a historiadora ao jornalista, todavia, ao serem perguntados quais personagens os entrevistados consideravam mais peculiares, Laurentino responde “Floriano Peixoto”, ao passo que Mary opta por “D. Pedro II”.
Gomes também pôde aproveitar o momento para se esclarecer perante a crítica. Muitos odeiam o fato de ele escrever sobre História porque essa não é sua área, sua especialidade. Vivemos num novo conceito de sociedade, da especialização, da técnica, mas qual realmente é o problema de adentrar outro campo se há capacidade de se pesquisar, e citar autores, e buscar informações? Fazendo uma analogia, o julgamento é parecido a algo como dizer que um jogador de futebol nunca poderá ser um dançarino, porque essa não é sua especialidade – mesmo que ele possa aprender a dançar.
Na íntegra, Laurentino aplicou o que, na minha humilde opinião, foi uma excelente resposta:
“Eu acho que o jornalista tem a missão de tornar esse conhecimento mais acessível a um público médio, a um público às vezes mais leigo, não habituado a ler sobre o assunto, então eu acredito ser um abridor de portas, para que as pessoas se interessem pela História do Brasil e, a partir daí, leiam livros com maior profundidade, com maior densidade acadêmica. […] Então é muito importante você fazer essa sutil combinação, não pode exagerar nem de um lado nem de outro: se eu der um mergulho muito profundo, eu vou invadir o terreno do historiador e provavelmente eu vou ‘me dar mal’, porque eu não tenho treinamento para fazer isso, o livro vai ficar mais denso do que deveria; e se eu ficar só na banalidade, só na superficialidade, na caricatura, o livro é irrelevante, não contribui com nada, ele vira um belo almanaque a respeito de curiosidades da História do Brasil – e existem muitos almanaques de curiosidade circulando por aí.”
Após o debate sobre os personagens, os autores seguiram para as editoras para autografar seus livros-lançamento: 1889 e O Castelo de Papel.
Revisado por Amanda Prates.

Monique Almeida | setembr

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