Dossiê Aids e Cinema – morte, resistência e sobrevivência

 

Dossiê Aids e Cinema – morte, resistência e sobrevivência

by Luiz Antonio Ribeiro

Especialistas e pensadores afirmam que se fossemos delimitar um marco para o fim do século XX, ele seria a queda do Muro de Berlim, em 89. Lá, com o fim da União Soviética, se configuraria o fim de um gigante que no decorrer de todo o século se tornou a pulga atrás da orelha de todo pensamento do que se ousou chamar de democracia. A queda do Muro, então, seria o último grande obstáculo que representa a última grande mudança social e política do século. Eu, sem discordar completamente disso, diria que o Muro de Berlim é a representação da mudança do foco político, mas ressalto que a principal mudança da mentalidade social se dá por uma praga que se espalha justamente nos primórdios do fim da União Soviética: a AIDS.
É a AIDS que mata Fredy Mercury e Cazuza e cria as boybands e o sertanejo mela-cueca agro-brega; é a AIDS que faz o sucesso das igrejas neopentecostais ao redor do mundo e é a AIDS que impede a concretização final, o último gesto para a definitiva liberdade sexual. É a AIDS que amplia o medo e espalha o conservadorismo e a preferência pelas direitas republicanas, pela manutenção de oligarquias, tradicionalismos e a ideia ultrapassada de família. É a AIDS que mantém ainda hoje o preconceito aos homossexuais, a repulsa a formas alternativas de prazer, a ampliação da legislação do aborto, das drogas. Entre outras coisas, e só para finalizar, é a AIDS que recria uma ideia de medo e culpa na consciência das pessoas, tornando-as desconfiadas de que a sociedade é um lugar bom e seguro para viver.
Esse artigo tem como objetivo fazer um breve apanhado do cinema em relação a AIDS em três décadas diferentes e observar como ela interferia diretamente no corpo e na mente das pessoas. Para isso utilizarei três filmes: Filadelfia de Jonathan Demme, com Tom Hanks e Denzel Washington. Posteriormente, a série da HBO Angels in America (2003), de Mike Nichols, composta como filme, com Al Pacino e Meryl Streep e, por fim, o documentário Como Sobreviver a uma Praga (2012) de David France, concorrente ao Oscar de Melhor documentário em 2013.
Filadelfia (Philadelphia, 1993)
Filadelfia é a história do advogado Andrew (Tom Hanks) que trabalha em uma grande empresa de advocacia e, após ser promovido, revela sem querer uma lesão no rosto, para um dos sócios da firma. Pouco tempo depois, um relatório para um grande caso de Andrew some e ele, já doente da AIDS, é demitido por negligência. Ao farejar que sofria de preconceito, procura um advogado, Joe Miller (Denzel Washington), um negro homofóbico que resolve cuidar de seu caso e, aos poucos, vai desfazendo toda imagem que tinha dos homossexuais.
O filme mostra que algumas coisas na vida são negociáveis, enquanto outras não e que, em alguns casos, podemos abrir exceções, fazer concessões e, tirando uma média, relevar aquilo pelo que sofremos e somos acusados. E que, entretanto, com a AIDS tudo é urgente e o buraco é sempre mais embaixo. Fica latente em Filadélfia que a questão do preconceito está baseada na distância. Sempre que você se aproxima dos problemas do outro, o preconceito enfraquece, se esgarça e, aos poucos, tende a sumir. E a batalha judicial que enfrenta Andrew, genialmente interpretado por Tom Hanks, serve para mostrar para a sociedade: eu existo, eu tenho direito, sofri preconceito e quero retratação, sou um profissional exemplar e quero receber exatamente aquilo que sou e mereço. Enfim, Andrew vai à justiça simplesmente para provar o óbvio: ele é só um cara qualquer.
Filadélfia, já em 93, enquanto muitos ainda morriam de AIDS, expôs violentamente todo o quadro em que os contaminados deviam enfrentar. O filme mostra uma vitória ímpar, que mesmo que termine não tão bem, com a morte, é uma história de vencedores que ganham o direito de existir e dizer com orgulho aquilo que são.
Angels in America (-, 2003)
Angels in America se passa em Nova Iorque na década de 80 e narra a expansão da AIDS pela sociedade que se vê energicamente levada ao limite físico, político, mental e ideológico e precisa, por conta disso, buscar uma forma de controle, convivência e sobrevivência, primeiro dos infectados e, depois, dos demais membros da comunidade. A série/filme conta a vida de diversos personagens margeados pela questão da doença: alguns sofrendo com ela, outros sofrendo com quem sofre e outros sofrendo as consequências diretas do tratamento.
Entre as personagens, um advogado famoso e cruel interpretado por Al Pacino que afirma não ter AIDS, mas câncer, porque AIDS é doença de homossexual e de pessoas marginais, enquanto ele, rico, era apenas um heterossexual que dormia com rapazes. Entretanto, o foco principal está no casal interpretado por Justin Kirk e Ben Shenkman. O primeiro, após se descobrir infectado, é abandonado pelo segundo e, em suas noites de febre e dores, tem como visão um anjo que lhe nomeia profeta e que, como tal, tem como função exercer aquilo que lhe foi incumbido, ou seja, ascender na vida espiritual e largar esse mundo de profundo sofrimento.
O mundo de Angels in America é violento, encantado, divino e tem um aspecto de Antigo Testamento, onde todos podem ser mortos a qualquer momento ou receber uma visão aniquiladora e apocalíptica, ou simplesmente perceber que todo seu mundo pode desabar a qualquer sinal dos céus. Esse encanto do mundo, por um lado, apresenta uma metafísica e uma possibilidade de ascensão ao outro mundo e, por outro, torna toda a vivência latente, na carne, sem cicatrizes, mas de pulsão de vida e morte se equilibrando por um fio que pode vir a se romper a qualquer momento.
A AIDS, nesse contexto, é o elemento chave: é ela que desencadeia e leva todas as sensações ao seu limite. A sentença de morte, a pulsão sexual, a vontade de viver, a latência do amor, a fraternal relação, a moral religiosa, tudo isso é questionado pela obra e, através desse completo caos em que anjos e mortos e visões aparecem para interferir na vida, é que podemos perceber como essa doença, essa praga que assola o mundo, em um determinado momento foi capaz de repaginar todo um projeto civilizatório e romper com qualquer barreira social para criar outras. A política, a religião, o corpo e, enfim, a vida, nunca mais poderiam ser a mesma coisa.
 
Como sobreviver a uma praga (How to Survive a Plague, 2012)
Como sobreviver a uma praga, concorrente ao Oscar de Melhor Documentário em 2013, conta a trajetória dos homossexuais de São Francisco que tentam, a partir de reuniões e passeatas, participar e assumir o controle das ações governamentais e das empresas farmacêuticas no controle da AIDS na década de 80. Por serem o grupo mais afetado pela doença, eram eles que viviam na pele suas consequências e sabiam quais remédios eram mais eficazes e quais combinações eram as mais perigosas. Assim, eles montam o grupo chamado ACT UP que se reúne regularmente para debater, apontar saídas, fazer palestras e conferências sobre o tema, além de estudos próprios com médicos a fim de achar remédios que haviam sido utilizados e cujo resultado havia sido positivo em pacientes pelo mundo. Para se ter uma ideia, juntos apresentam uma lista de mais de noventa remédios que haviam sido noticiados como eficazes.
Um das cenas mais emocionantes do filme é quando uns dos membros do ACT UP e TAG que sobreviveu a AIDS afirma que em 1989 já havia os remédios que formavam a base do coquetel para a sobrevivência dos infectados pela AIDS, mas que, por um lado, um governo profundamente conservador e desinteressado nos doentes e, por outro, um ativismo adolescente e disperso, geraram um atraso em prever a combinação que só foi feita em 1996, o que resultou na morte da maioria de seus amigos.
Ao fim, podem-se ver os bravos sobreviventes da doença que superaram todas as crises desde a década de 80. Em seus corpos gastos pela doença e pelo tempo há muito afeto, um choro cansado das batalhas, saudoso, que deixa no ar a melancólica certeza de que tudo valeu a pena. A certeza desses homens é a de que muito se fez, muito se lutou, muito se mudou, mas nada vai trazer de volta a liberdade de outros tempos e a vida dos muitos que se foram.
Luiz Antonio Ribeiro | setembro 22, 2013 às 3:01 am | URL: http://literatortura.com/?p=12302
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