Tempo 3 – Semíramis Alencar

Num solo abandonado qualquer, respeitado o tempo de seu descanso, num pousio forçado, um lavrador roça o pasto, num interminável dia. Não há nenhuma promessa de vida e suas mãos na enxada capinam o futuro que seu coração antevê. Um longo tempo para plantar e colher decorrerá dali.

Chegado o tempo da preparação da terra, os antigos já sabiam que a terra bem adubada dá bons frutos, entretanto esses cuidados requerem tempo.
O arado rasga a terra úmida e nutrientes orgânicos são dispensados nela, semanalmente. Os microrganismos se formam através do mormaço, da chuva e do sol, para que as minhocas possam surgir nutrir a terra com seu húmus, decorrente da decomposição dos nutrientes jogados na terra.

Depois desse tempo de preparação, é chegado o tempo de semear o solo. O arado volta a rasgar a terra em camadas, nas quais o agricultor depositará grãos ou mudas da espécie escolhida para germinar (nessa escolha um novo tempo de espera). Cuidadosamente o trabalhador deposita os grãos e os cobre com fina camada de terra, depois irriga, num processo ancestral, mas ordenado, respeitando cada etapa presente até então.

Transposta essa etapa, chega o tempo da germinação. Dependendo de cada espécie, um período longo, cheio de incertezas: a incerteza se a semente é de boa procedência, a dúvida se o solo fora bem adubado, se está sendo adequadamente irrigado, se não há pragas ou ervas daninhas capazes de destruir um trabalho de meses… a inconstância da chuva e o ataque inconsciente de alguns animais, demandam tempo.

E esse tempo cada vez maior se transforma em um segundo quando a primeira semente se rompe num gérmen, mais tempo urge para transformar o gérmen em broto, do broto à muda e da muda ao arbusto.

Tempo de colheita, de transporte e replantio. Quase uma encarnação inteira se dá para a maturação de uma nova etapa de dormência e o jovem arbusto cresce em árvore, maturando até sua primeira poda. Até chegar esse momento, uma vida se vingou. A poda, se bem sucedida, dá origem às flores, sinal certeiro que está próxima da procriação. Novas sementes brotam e são lançadas ao chão. Um novo ciclo recomeça, um novo tempo se inicia.

Como tudo na vida, após vários ciclos e ciclos de transformação, chega o tempo das despedidas. A ancestral árvore que um dia foi semente, broto, arbusto, deu flor, semente e abrigou em seus galhos tantas formas de vida, apodrece em sua raiz e troco e cai ao chão. O tempo dela chegou e como tudo na vida, transitório e passageiro somente deixa em nós as lembranças do que ficou.

Semíramis Alencar
20/03, Outono de 2013

info_Plante.jpg

Anúncios